sábado, 14 de novembro de 2009

Baader-Meinhof

Só agora tive tempo de assistir a "O Grupo Baader-Meinhof" (Baader Meinhof Komplex - Alemanhã, 2008), sobre a trajetória real dos famosos terroristas que sacudiram a Alemanha Ocidental nos 70. A produção, dirigida por Uli Edel, com roteiro de Stefan Aust e Bernd Eichinger, tem muitos méritos, e o maior deles é o de não romantizar a ação dos protagonistas, que são vistos como aquilo que de fato eram: terroristas. É o segundo filme político que me atrai a atenção sobre a Alemanha pré-queda do Muro de Berlim. O outro é o excelente "A Vida dos Outros" (Leber der Aderen, Das - Alemanhã, 2006), obra de ficção histórica com direção e roteiro de Florian Heckel von Donnersmarck. Sei que eu, um anti-comunista convicto, sou suspeito ao falar de dois filmes com visão negativa do socialismo real alemão. Mas, política à parte, acho que são duas soberbas obras de arte cinematográfica.

domingo, 8 de novembro de 2009

Uma Coca-Cola vinte anos depois

Aceitei o convite de um amigo promotor de eventos e fui comemorar ontem à noite a chegada dos meus 37 anos numa festa temática com canções dos anos 80. Ocupei uma mesa fora da pista de dança, de onde podia ver o público, formado por pessoas de várias idades. Presente à festa, meu filho Pedro, de 15 anos, ouvia atentamente a banda executar releituras de canções lançadas na época em que eu tinha a idade dele. A julgar por seu entusiasmo e pelo brilho dos olhos, Pedro parece ter gostado do repertório.
Sentado com uma garrafa pequena de Coca-Cola, mesma bebida que eu tomava nas noites de sábado de 20 anos atrás, fiquei horas observando a eclética pista de dança. Comecei a achar que a mistura de gerações era a grande atração da festa. Mais do que os cabelos grisalhos na minha cabeça e do que as marcas de expressão no meu rosto, ver meu filho prestando atenção às canções que eu ouvia quando tinha 15 anos, e considerando-as "velharias" dignas de serem tiradas de dentro do baú, fez com que eu me desse conta de que os dias, afinal, passaram rápido nas duas últimas décadas. Voltei para casa com os versos da canção do Ira! na mente:

Quando me sinto assim,
volto a ter quinze anos.
Começando tudo de novo,
vou me apanhar sorrindo.
(...)
Vivendo e não aprendendo
Eis o homem (esse sou eu)
Quis se diz seguro
Que se diz maduro...

Antes de dormir, fui ao quarto de Pedro e o encontrei empenhadíssimo em localizar na internet canções de Lulu Santos, RPM, Legião Urbana e outros ícones dos meus tempos de adolescência. Hoje, quando voltamos a conversar, falei então sobre a canção do Ira!, e Pedro fez um comentário: "Essa é bonita, mas não tocou lá, pai". Pedro tem razão. Era na minha cabeça que a canção do Ira! estava tocando.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Os meus eternos


Saudade: substantivo abstrato surgido do galego-português
e formado a partir do vocábulo latino "solitas". Segundo os dicionaristas, descreve
a mistura de perda, distância e amor

Meu avô materno, Sebastião, tinha 9 fazendas, espalhadas por 3 municípios, 9 filhos e uma grande preocupação: partir deste mundo com a certeza de que sua descendência teria um chão para plantar e colher. Durante os 64 anos que viveu, ele, que via tudo com clareza e sabedoria, embora não tenha cursado sequer a escola básica, limitou seus horizontes às terras de sua propriedade. Não me lembro de que tivesse ido ao litoral uma única vez nem de que tivesse feito qualquer viagem a um ponto turístico. Estava feliz no campo, com seu gado, suas lavouras, seus chapéus de feltro e seus ternos puídos, que lhe davam a aparência de ser o motorista de seus motoristas. Minha avó Marieta, sua esposa, passou a vida tentando agradar ao marido, aos filhos, aos familiares, aos amigos e conhecidos e até àqueles que não conhecia. Entre estes estavam os presos da cadeia pública, vizinha à sua casa na cidade, aos quais ela enviava comida, doces, salgados e o que mais houvesse sobre a mesa. Católica fervorosa, não por medo do inferno, mas por amor a Deus e ao próximo, ía à missa todos os dias e ainda rezava em casa por todos aqueles de quem gostava, tendo o cuidado de listá-los. Com o passar dos anos, a lista ficou grande demais, e ela acabava dormindo na poltrona com o rosário nas mãos.
Meu avô paterno, Márcio, era industrial e vendia por todo o país as balas Santa Rita, produzidas na fábrica de mesmo nome fundada por seu sogro, meu bisavô Baptista de Almeida, que na década de 30 contou com o apoio do governo de Getúlio Vargas para erguer o empreendimento. Industrial por acidente, ele era sobretudo um grande pescador e um violonista reconhecidamente soberbo, do qual me contam que gostava de se instalar com seu violão numa das sacadas do velho sobrado em que morava com minha avó Nilza, uma das pessoas mais discretas, e uma das mais sofridas, que já conheci. Nas décadas de 50 e 60 do século passado, nas noites em que havia bom tempo e era grande o movimento de pessoas na praça central da cidade, meu avô fazia concertos para a lua com sua voz forte e aveludada. Houve quem o chamasse de inconsequente no trato do patrimônio herdado pela esposa, e ele não se incomodou. No fundo, acredito que ele não estava interessado na indústria. Preferia pescar, produzir melodias e distribuí-las a quem as quisesse ouvir.
Meu tio Maurício, um artista plástico ousado e irreverente, passou a vida espantando a cidade com suas opções estéticas e ensinando que o conservadorismo, afinal, não é sempre algo a se defender. Com sua obra pós-moderna, abreviada pela AIDS, aprendi que pode haver tanta beleza em Rembrandt quanto em Picasso. Maurício era diferente de meu primo Vicente, que, por outros motivos, também chocou os conservadores locais por sua mania de doença e sua curiosidade intelectual insaciável. (Ele só abria portões segurando-os pela parte mais baixa da grande, onde era menor, segundo seus cálculos, a probabilidade de haver bactérias). Vicente também espantou a cidade por deixar de lado o trabalho na extensa fazenda que havia herdado dos pais para se dedicar com exclusividade à matemática e, sobretudo, à astronomia, sua paixão. No início dos anos 70, numa noite em que descansava das observações científicas olhando o céu em busca de beleza, ele deparou com uma luz diferente e acabou descobrindo uma supernova que a comunidade científica internacional batizou com o seu nome.
Todos estão agora naquela condição em que coloco as pessoas que, ao desaparecerem da linha de alcance dos meus olhos, reapareceram dentro de mim. É deles que me lembro hoje, neste dia que se convencionou dedicar à lembrança dos que já terminaram o caminho que nós ainda estamos trilhando. Os meus eternos — é assim que os chamo — eram muito diferentes entre si, e penso que não haveria como conciliar suas características e suas idiossincrasias no espaço que fica acima da grama e abaixo das nuvens. Como juntar a timidez de fazendeiro de meu avô Sebastião com a alma de artista de meu avô Márcio? De que modo unir a irreverência artística de meu tio Maurício com o espírito metódico de meu primo Vicente? Isso, antes impensável, tornou-se possível agora que eles se encontram juntos no céu da minha memória. Neste céu estão, em celestial harmonia, as fazendas e os violões, a astronomia e a pintura abstrata, a irreverência e o rigor científico. Essa mistura, muito viva, me prova, ano após ano, que todos cessaram. Mas não deixaram de existir em mim.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A vida nos trilhos

If You miss the train I´m on
Se você perder o meu trem
You will know that I´m gone
Saberá que terei ido
O sábado já tem um programa escolhido: pouco antes de o sol se pôr, vou percorrer o trecho da rede ferroviária que passa próximo à cidade, como fazia na infância. Para lembrar os bons tempos, preparei uma trilha sonora especialmente para a ocasião. Ela será encabeçada por uma de minhas velhas fixações, Five Hundred Miles, de preferência na gravação dos Brothers Four, ou na de Peter & Gordon, que conservam o espírito singelo e sonhador desse clássico da folk music. Junto com Thoreau, meu irrequieto labrador, quero me distaciar alguns quilômetros da região urbana. Caminhar na linha férrea é um hábito comum no interior, principalmente entre aqueles que, como eu, têm origem rural. Para mim, é também um ritual, que recomendo a todos. Ninguém deveria deixar este mundo sem antes percorrer pelo menos uma vez as retas e curvas que formam a linha do trem. De vez em quando é preciso pôr os pés nos trilhos e a cabeça nas nuvens.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Antes e depois do agora

Se é verdade que o tempo acentua os defeitos, devo me preparar para o agravamento do meu já antigo problema com o presente. Não é que eu deixe de viver o dia de hoje. O problema é que não o vivo tão intensamente quanto recomenda o bom senso. Grande parte da minha vida interior se passa antes ou depois do agora. E eu, teimosamente surdo aos apelos do que se chama de "vida prática", vou vivendo num ponto estreito entre a lembrança do que passou e a perspectiva do que virá.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

À deriva

Não sou feliz, mas não sou mudo:
hoje eu canto muito mais
Belchior
Chego aos 37 anos no próximo dia 7 de novembro com algumas rugas no rosto, uma coleção de cabelos brancos e uma constatação tão incontornável quanto o decorrer do tempo: o fato de eu ter passado boa parte desses anos tentando usar mais a razão do que a emoção nunca me iludiu. Eu sei bem onde me encontro. Barco vagando no mar em meio à tormenta gigantesca, cabana solitária no campo à mercê do furacão descomunal, caminhante perdido à noite na floresta fechada: essas imagens, melhor do que qualquer conceito, explicam como vejo a luta da minha frágil racionalidade contra as poderosas emoções que me surgem. A razão vem perdendo o combate, e isso não é bom nem ruim, triste ou alegre. É só a vida rindo-se da minha vaidade de querer estar no comando.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Tempestade no bosque

Voltei a fazer caminhadas em matas próximas à cidade. Na última delas, depois de andar por cerca de vinte minutos na trilha que existe num dos parques do município, dei com os sinais de um temporal que havia caído na semana anterior, entre eles uma árvore já antiga atravessada no meio do caminho e, mais adiante, um ninho de filhotes de pardais que não resistiram ao rigor da natureza. Antes de continuar meu caminho, fiquei por cerca de 5 minutos olhando a árvore e os pequenos pássaros mortos e pensando na inestimável vantagem que as demais formas de vida, por mais simples que sejam, têm sobre nós, bípedes pensantes. Plantas e animais cessam no momento em que morrem. Homens e mulheres, ao contrário, correm o risco de cessar antes da morte, seja por desilusão, desencanto, depressão, tristeza ou sofrimento. Quando isso ocorre, a vontade e a alegria de viver ficam no chão, tão mortos quanto as árvores e os pássaros que as tempestades de verão destroem dentro do bosque. Mas o corpo continua a vagar como um fantasma condenado a existir sem como nem porquê. Pensar que cessamos é íngreme, como disse o poeta. E torna-se ainda mais doloroso quando pensamos que isso pode nos ocorrer antes do fim. Viver, afinal, é mais do que respirar.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O infinito começa às 6 da tarde

O horário de verão me tira do sério. Isso não ocorre por causa da alteração do meu ritmo biológico e sim por desnorteamento filosófico. Na minha cabeça, o adiantamento dos relógios começa a fazer diferença às 18 horas, quando acontece o meu ritual diário de pensar na vida enquanto olho o céu. Ocorre que o céu das 6 da tarde tem um ingrediente único para estimular meus pensamentos, pois mistura o dia que se vai e a noite que chega. É o meu momento crítico, aquele em que sou capaz de conservar a clareza científica do dia e me abrir às penumbras sonhadoras da noite para questionar, sem radicalismos de uma parte ou de outra, o que ando fazendo neste Planeta. Com o novo horário, entretanto, o fim do dia ocorre antes de a luz declinar no céu. Fica faltando, portanto, aquela meia luz que me convida, desde a infância, a olhar para o alto para enxergar o meu interior. Se o governo tivesse um departamento para ouvir queixas filosóficas, eu iria enviar a minha. E acho que tenho razão. De que me vale "ganhar" uma hora por dia e perder instantes infinitos em que sou capaz de olhar para mim mesmo e enxergar, com razão diurna e paixão noturna, essa história de linhas errantes, às vezes patética, outras vezes desconcertante, que eu chamo de Minha Vida?

domingo, 18 de outubro de 2009

Para onde vai a poesia?

A constatação de que a poesia vai se tornando uma ave cada vez mais rara nas livrarias tem razões mais profundas do que supõe a lógica de mercado. Não se trata de dizer simplesmente que os livros de poesia estão diminuindo das prateleiras de lançamentos por algum motivo como a falta de interesse dos editores. O que está diminuindo, penso, é a capacidade de ler poesia, isto é, de entender e valorizar a dimensão poética da existência humana. Assim, o fato de haver menos livros de poesia nas livrarias é causa e não efeito.
Constitui um lugar comum já antigo dizer que não sobraram muitos espaços para o lirismo sob o nosso tempo. Há nisso algo de verdade. O tipo de sensibilidade requerido pela poesia exige do leitor a habilidade de pôr em suspenso, por algum tempo, seus compromissos com a visão utilitarista que está subjacente à cultura de nossa época, com sua ênfase em mensagens mais fáceis e diretas. Esse tipo de sensibilidade exige também a habilidade de perceber o mundo de outra maneira e de ver de modo diferente o que antes parecia familiar.
Essas habilidades não são estimuladas pelo clima geral da cultura de nossa época. Esse clima aceita e incentiva a literatura de passatempo, mas não se conforma facilmente a um tipo de texto literário como o poético, que visa a causar um estranhamento e a fazer com que o leitor introduza na normalidade cotidiana certas inquietações existenciais que antes não pareciam cabíveis. Como não se presta a passatempo, tal como algumas histórias policiais e de aventura, que continuam vendendo bem, a poesia tem o seu espaço encurtado.
Esse encurtamento fez com que o lirismo dos tempos atuais fosse se concentrando cada vez mais na temática sentimental. O resultado é que apenas uma vertente do lirismo, a romântica, continua familiar ao público leigo. Isso explica o fato de quase todas as pessoas, mesmo as que não tiveram educação literária, compreenderem mensagens contidas em poemas que tematizam relacionamentos amorosos, enquanto um número cada vez menor de leitores é capaz de interagir com um texto lírico que está fora desse quadro temático.
Um rápido passeio às livrarias prova esse fenômeno. Poetas como Drummond, capazes de uma lírica abrangente, que não se esgota na temática de relacionamentos amorosos, continuam a ser reeditados, e seus poemas de amor vendem muito mais que os outros. O mesmo ocorre com Fernando Pessoa. Alberto Caeiro, o maior dos heterônimos pessoanos segundo o próprio Pessoa, é também o menos assimilado pelo público leigo, e o motivo, acredito, está no fato de grande parte de sua lírica não se fixar na temática dos relacionamentos amorosos.
O público leigo tende a procurar uma continuidade entre a letra da canção popular que fala do amor romântico de um modo já familiar e os poemas impressos em livro. Rupturas nessa continuidade, produzidas por textos que trazem inquietações existenciais, ou que chamam a atenção pelo modo de dizer e não só pelo conteúdo da mensagem, tendem a não ser compreendidos em muitas de suas características, o que se deve, em parte, à deficiência da educação para a arte em nossos dias.
A pergunta é: a poesia sobreviverá? Não parece haver motivo para pensar que ela vai desaparecer. A poesia reside num tipo de atitude que consiste em dar sentidos a certos conteúdos, lançando sobre eles um novo olhar. Essa atitude, como todo ato de dar significação aos elementos da realidade, é constituinte da natureza humana. Se é assim, não há por que temer o desaparecimento da poesia nem, por conseguinte, da produção de textos poéticos. Os poetas continuarão existindo e sendo lidos em seus círculos.
O que parece incerto é se existirá um público leigo interessado em poesia, assim como existe um público leigo interessado em romances policiais ou de aventuras. O que se pode dizer com segurança é que, se o público leigo de poesia, desde sempre menor que o de romances, diminuir até desaparecer, fazendo com que todo o lirismo voltado para a massa se concentre em letras de canções populares, o mundo ficará com menos inquietações existenciais e, ao mesmo tempo, mais pobre de pessoas capazes de valorizar a dimensão estética da vida.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Uma paixão em cada parágrafo

Um balanço retrospectivo me levou a uma constatação inesperada sobre a minha vida: nunca, nos últimos 36 anos, 11 meses e 8 dias, escrevi uma carta de amor ou de ódio a quem quer que seja. Aliás, eu muito raramente escrevi cartas que falassem de sentimentos. Nem mesmo nesta era do e-mail me aventurei a longos textos que trouxessem algo do que sinto. Em se tratando de sentimentos, começo tentando escrever, quando julgo que devo, mas termino abandonando a ideia e preferindo o telefone ou a conversa pessoal.
O motivo dessa recusa, agora vejo com clareza, está no meu pavor de cair naquilo que chamo o limbo dos escritores. Na minha imaginação, esse lugar terrível é povoado pelas palavras escritas e não sentidas. Estão lá todas as declarações de amor, todas as crises existenciais e todas as gargalhadas e demais sentimentos que nunca passaram de palavras arranjadas, sem qualquer carga pessoal que funcione como âncora e as impeça de flutuar ao sabor das ondas por falta de peso e conteúdo.
As palavras sempre me pareceram ao mesmo tempo encantadoras e traiçoeiras. Sinto-me encantado quando me vejo nelas. E me julgo traído sempre que não reconheço nada de mim naquilo que coloco no papel ou na tela do computador. E isso ocorre com frequência, o que me obriga a fazer longas revisões de detalhes, até que eu consiga enxergar pelo menos centelhas de mim em frases, expressões e palavras, como se elas fossem uma janela sem vidraça em que posso não só ver a paisagem, mas também sentir seu cheiro trazido pelo vento.
Mas nem sempre percebo de imediato quando uma palavra me trai. Para tentar identificar a traição, fico atento às minhas reações corporais. Diante da palavra "indignação", por exemplo, é indispensável que meu corpo tenha uma leve contração. Para "saudade", o teste de veracidade é um incômodo agudo no peito. Se o termo for "solidão", o sinal seguro de que é verdadeiro está no meu olhar, que foge para a frente e se fixa em algum ponto do horizonte, como se tentasse enxergar para além das montanhas.
Escrever, para mim, tem algo de uma experiência gratificante e, ao mesmo tempo, desgastante. Não é raro que, diante de certas palavras, meu coração ameace sair pela boca, tenha calafrios ou comece a sentir calor. Não admira que eu tenha escrito até hoje tão poucas linhas que falem de meus sentimentos. Venho agindo assim, agora eu sei, por instinto de defesa. Afinal, eu nunca sei até quando meu coração vai se manter de pé em meio às ondas de sentimentos que eu insito em procurar em cada parágrafo saído das minhas mãos.

A delícia de não saber

No fundo, no fundo, como gostava de dizer um amigo de infância (infelizmente, ele nem por isso me dava a impressão de ser profundo...), eu sou bobo. E essa bobeira tem sido uma das melhores características que eu poderia ter adquirido nesta vida. Sendo bobo, eu tenho a valiosa liberdade de não dizer sempre coisas aproveitáveis. E me dou ao desfrute de ter alegrias por motivos que à maioria das pessoas parecerão... bobos. Ultimamente, comecei a sentir alegria pelas coisas que não sei. Nada tenho contra a curiosidade e o saber, que na minha opinião são das melhores coisas que existem. É só, digamos, uma interrupção pontual na ânsia de assimilar conteúdos.
A propósito, já estou fazendo uma lista das coisas que, por não serem sabidas por mim, enchem-me de profunda, genuína e, claro, boba alegria. A lista é encabeçada pelo fato de eu não saber a diferença entre um meio-campista e um zagueiro. Quase vou ao delírio ao ouvir algum colega jornalista do rádio falando em tom solene sobre essas duas palavras. Mas essa alegria não se compara à que sinto por não saber nadinha sobre a vida amorosa de Ivete Sangalo ou sobre o último affair de Reinaldo Gianechinni. Não saber nada sobre a vida particular dos artistas me dá uma felicidade difícil de descrever, embora eu nada tenha contra os que sabem.
Um dia desses, eu, que não fumo e não consumo produtos proibidos (tomo apenas vinho, em quantidades bastante razoáveis, devo admitir), quase tive uma overdose de felicidade ao ver que eu não sabia coisíssima nenhuma sobre a Ilha de Caras. Enquanto aguardava minha vez na sala de espera de um consultório médico, fui invadido por uma sensação de bem-estar e gratidão por não ter a mais remota idéia de onde fica essa tal ilha e sobre quem são aqueles que a visitam. Vagamente, relacionei a ilha com a revista homônima. Como ignoro por completo como seja de fato essa distinta publicação, a alegria foi dupla. Não saber pode ser uma delícia.

Criar como as crianças

Sou cuidadoso com a ideia, bastante difundida, de que a infelicidade nos torna criativos. Isso não me parece necessariamente verdadeiro. O que me parece, de fato, é que ser infeliz nos faz reflexivos. A disposição de refletir pode, em algumas circunstâncias, nos levar a uma certa abertura para a criatividade. No meu caso, porém, isso só funciona se eu não estou muito infeliz. Uma intensa e profunda infelicidade, para mim, não produz nada além de uma espécie de depressão que aos poucos aniquila a imaginação, fonte da criatividade. Melhor seria criar como as crianças: brincando consigo mesmas e com o mundo. As criações das crianças, em sua grande maioria, estão isentas de infelicidade. São produto da alegria ou de uma capacidade de dizer não à infelicidade. É pena que o caminho de volta à infância seja tão difícil de achar...

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Tempus fugit

Estou às voltas com a ideia de elaborar uma lista dos 100 livros de literatura, história, filosofia, ciência e outros assuntos que gostaria de ler antes de me tornar adubo da terra, bem como dos 100 discos que gostaria de ouvir e dos 100 filmes a que gostaria de assistir. Não anda fácil fazer a lista, pois estou bastante indeciso. Para facilitar as coisas, propus a mim mesmo um exercício: definir as escolhas que eu faria se só tivesse mais 6 meses de vida; em seguida, ampliar a lista para a eventualidade de me serem dados mais 6 meses; e assim por diante. A enumeração está saindo aos poucos, mas esse exercício de antecipação já me conduziu a uma primeira constatação digna de nota: não há sentido nenhum em perder tempo demais escolhendo livros, discos, filmes ou quaisquer outras coisas, pois esse tempo é tempo roubado à fruição das boas coisas da vida, que é o que interessa.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Imagens que convidam a pensar: a cruz verdejante de Friedrich

"Paisagem de inverno com igreja", de Caspar David Friedrich (1774-1840),
pintor romântico alemão
Quando leio ou ouço debates a respeito de técnicas de criação artística e literária, é comum encontrar referências àqueles que, segundo a opinião de cada debatedor, são os maiores criadores em suas respectivas áreas, transformando-se, por isso, em modelos a serem seguidos pelos iniciantes. Acho possível que se encontre, de fato, inspiração nesses grandes nomes da criação. Mas ouso discordar de quem os coloca no topo da lista, pois acredito que as grandes criações artísticas retiram sua força não só de modelos já existentes, mas também, e sobretudo, de atitudes concretas diante dos fatos da vida.
Alguns dsses fatos estão à primeira vista desconectados do que se considera usualmente como sendo o campo da criação artística. Acredito, entretanto, que, se merecessem análise cuidadosa, eles revelariam verdadeiras e belas obras de arte. Penso, por exemplo, naqueles que perderam familiares em circunstâncias trágicas e dão origem a movimentos e entidades que tentam evitar que o mesmo ocorra a outras pessoas; ou naqueles que, tendo sofrido alguma outra grande perda ou desilusão, ou passado por uma experiência-limite de adoecimento, ressurgem do fundo de si mesmos com a disposição de ajudar os que por ventura passam pelo mesmo problema.
Em todos esses casos, o que existe é criação genuína extraída do âmago da vida em circunstâncias radicalmente adversas. Ao invés de se aniquilarem, muitas pessoas que vivenciaram tais circunstâncias trocaram a desilusão pela esperança e substituíram a amargura pela vontade de fazer algo de útil e belo de suas vidas. Tais pessoas deveriam ser ouvidas com atenção quando o assunto é criação, seja essa criação artística, científica, social, política ou de qualquer outro tipo. São elas, pela capacidade que têm de extrair vida até mesmo da morte, os maiores criadores do mundo.
O que esses grandes criadores fazem é simbolizado pela imagem da cruz verdejante, um dos temas recorrentes na pintura romântica européia, em especial a do alemão Caspar David Friedrich. Em imagens que coloco entre as mais belas do paisagismo ocidental, Friedrich compôs poderosas alegorias que mostram a cruz, símbolo da experiência de morte e perda para os cristãos, ao lado de árvores verdes, que remetem à ideia de renovação da vida. O simbolismo é belo e profundo: a superação e a esperança são as folhas que desabrocham do tronco seco da dor para mostrar que vale a pena continuar vivendo.

Feriado, faxina, filosofia

Eu me contradigo?
Pois muito bem, eu me contradigo,
Sou amplo, contenho multidões.
Walt Whitman
Os feriados são um convite à faxina. Essa ideia me conduziu hoje pela manhã à estante em que guardo livros e papéis dos quais pretendo me desfazer. Encontrei lá, dentro de um mesmo envelope grande de papel, volumes da doutrina moral católica e de algumas obras de Nietzsche. Os livros, já um tanto comidos pelas traças, foram comprados na minha adolescência, quando me surgiu a preocupação de decidir entre a moral cristã e a moral nietzscheana. Eu os coloquei no envelope naquela época e os deixei lá até que conseguisse escolher entre ser cristão ou ser nietzcheano.
As traças tiveram um bom tempo para roer a obra de Nietzsche e os ensaios sobre a moralidade cristã. Eles ficaram longos anos na estante, não por esquecimento, mas por um motivo concreto. O fato é que a minha decisão — melhor seria dizer o meu "dilema" — entre uma e outra alternativa consumiu-me muito mais tempo do que eu supunha necessário. Na verdade, só depois dos 35 anos consegui chegar a uma resposta para a velha indagação dos meus anos de adolescente. Essa foi, possivelmente, a decisão mais difícil que enfrentei, até aqui, em se tratando de opções morais.
Da forma como a entendo, essa decisão é entre uma moral centrada na supremacia da relação do homem com seus semelhantes (a do Cristianismo) e uma moral que proclama a supremacia da busca do indivíduo por crescimento pessoal (a de Nietzsche). O dilema com o qual me debati não é difícil de entender. Penso que não se pode descartar uma moralidade que nos fornece parâmetros e diretrizes para a convivência em sociedade, assim como não se pode deixar de levar em conta uma moralidade que nos ensina a ser fiéis a nós mesmos e buscar a superação contínua de nossos próprios limites.
Minha angústia de escolha se deveu ao fato de eu ter levado a sério demais o debate que opunha Nietzsche ao Cristianismo, proclamando a incompatibilidade entre os princípios defendidos por ambos. Precisei de vários anos para chegar à conclusão de que essa oposição não se sustenta. Um cidadão do século XXI não pode, sem incorrer em misantropia, fechar os olhos à fundamentação da solidariedade encontrada em teorias morais como a cristã. E não pode, sob pena de trair a si mesmo, renunciar à esfera de moralidade individual em que busca o desenvolvimento contínuo sem aceitar limites de crescimento vindos de fora.
Durante algum tempo, premido pela constatação dessa dupla impossibilidade, acalentei a ideia de que se consegue deduzir do Cristianismo um conjunto de referências para a moralidade individual ou, ao contrário, a ideia de que se pode extrair de Nietzsche uma fundamentação sólida para a solidariedade. A meu ver, nenhuma das duas se sustenta. Quando se levam em conta as consequências práticas da aplicação da moralidade cristã e da moralidade nietzscheana, chega-se facilmente à conclusão de que ambas estão, na essência, comprometidas ou com a solidariedade ou com o auto-aperfeiçoamento.
Resolvi esse dilema por adição e não por subtração. Por volta dos 35 anos, já com muitos cabelos brancos e a consciência de finitude que me veio junto com eles, entendi que era preciso, junto com uma moral da solidariedade fraterna, abraçar uma moral que me abrisse as portas do crescimento individual baseado na capacidade contínua de nos reinventarmos. Entre Nietzsche e a moral dos Evangelhos, fiquei com ambos, aquele para a esfere individual e este para a social. Assim, num feriado como este, que convida à faxina, eu, que antes pensava dispensar alguns volumes em benefício de outros, prefiro jogar fora a ideia de que só há um ângulo correto para olhar a vida.

Navegar é Preciso: A lírica irrequieta de Leonardo B.

Abandona o teu silêncio,
As palavras que decoraste
E os grãos de terra fáceis de contemplar.

Os versos acima, uma bela exortação à originalidade, são extraídos de um dos posts de "A última estação de Ricardo S., de Leonardo B. A partir de Colmeal Velho, em Portugal, o autor dispara, em três blogues, sua verve poética, produto original de um liquidificador lírico em que se misturaram essências de Dylan Thomas, Robert Frost, Emily Dickinson e Pessoa, entre outros ingredientes não menos grandiosos. Gostei sobretudo da extraordinária capacidade de Leonardo B. de se apropriar liricamente da paisagem exterior para lhe dar um sentido interno. É poesia muito acima da média, ditada por uma notável inquietação existencial a um talento irrequieto, sob a supervisão de uma alma poderosamente lírica.

Parto do princípio que a neve verde das serras envenena os corações
Parto do princípio que a neve verde das serras envenena os corações
E a chuva horizontal dos ribeiros coloca na terra uma haste.
Desfeitos os equívocos dos dias e das nuvens
Corta-se das folhas das árvores o produto da esperança
O todo
Como se o temor fosse feito de papel e argila.
Húmidos os cabelos de terra,
Dedos de rosmaninho e alecrim
E ventre fecundo de imaginação.
Se o teu beijo for o sinal, o poema começa assim

***
Sinto o ar
Nesta praia que aparenta um deserto
De areia e mar, ao fundo.
Reconstruo o mecanismo das ondas,
O velho espírito das ondas.
Pergunto agora
As consequências do tratado que protege
As borboletas que navegam nas asas das gaivotas,
E todos os seus voos
Agrestes, que me fazem sentir o ar iodado.

***
A boa terra que me dá abrigo nesta hora constante
A boa terra que me dá abrigo nesta hora constante
Gira incessante, neste momento de sol
E noutro de noite escura.
Espero por um momento, antes de olhar de novo
A serra e verde que me dá a esperança,
No ar, o pássaro que dança,
No fogo, o riso que se perde
E logo no ar, a palavra, salto e rodopio
Posto que todas as letras desordenadas ganham sentido(sim!)
No fundo, este dia prova que nem tudo está perdido!

***
Nunca assisti ao nascimento de uma flor
Nunca assisti ao nascimento de uma flor
Sem a dor
De ser testemunha da sua morte

domingo, 11 de outubro de 2009

Diário de um leitor de jornais: a verdade aprisionada na notícia

Um sentimento profundo de desânimo se abate sobre mim sempre que vejo, estampada em letras chamativas ou anunciada em tom eloquente, a afirmação de que um certo veículo de mídia assume seu compromisso com a verdade. O motivo do desânimo é a pobreza filosófica — talvez fosse melhor dizer "miséria filosófica" — da ideia de que a verdade é sempre algo palpável ao qual chegamos por meio de esforço e honestidade.
Essa ideia só pode ser levada a sério por quem ignore por completo as principais contribuições que o pensamento filosófico deu à reflexão sobre a verdade feita nos últimos 50 anos. Qualquer pessoa de bom senso consegue captar o pensamento central dessas contribuições: não há verdade nos fatos enquanto coisas ou acontecimentos do mundo, mas nas declarações que fazemos sobre eles, sendo "verdadeiro" e "falso", portanto, valores que atribuímos a algumas declarações a partir de critérios. O critério mais utilizado, ao qual o jornalismo filosoficamente pobre se agarra como se fosse o único, é o de correspondência à realidade. Assim, seria verdadeiro tudo aquilo que corresponde aos fatos encontrados no mundo.
Desnecessário dizer que essa ideia é redutora e demasiado simplificada, pois, embora possamos com razoável tranquilidade dizer que um conjunto de enunciados científicos corresponde aos fatos até então conhecidos sobre o DNA, já não podemos fazer o mesmo de modo tão tranquilo em relação a temas como o uso do conhecimento que temos sobre a estrutura genética do ser humano. É fácil perceber que são esses temas, mais do que enunciados científicos, que exigem uma discussão esclarecida, pois são eles que resultam em mudanças práticas na vida das pessoas. Para lidar com eles, não basta a capacidade de narrar a realidade, tão prezada pelos repórteres tradicionais, sendo necessárias também as habilidades de discutir, comparar, analisar e inferir conclusões sobre os fatos, desconfiando sempre das aparências.
Neste ponto a pobreza filosófica de parte do jornalismo contemporâneo faz seu estrago: partindo do pressuposto de que em questões polêmicas se pode atingir, no final das contas, o mesmo nível de consenso atingido nas questões de fato, esse jornalismo acaba ingenuamente investindo tempo e esforço na busca da verdade total, esquecendo-se de que o que existe, nesses casos, são verdades parciais que, confrontadas por meio de argumentos e contra-argumentos numa situação de debate racional, produzem um entendimento, sempre temporário, acerca de cada ponto de discussão.
A verdade, em grande parte dos temas que mais interessam à humanidade no mundo contemporâneo, não é produto de descoberta, mas de invenção. Ela não é algo que está à nossa espera na natureza ou no mundo cultural, como um prêmio por nossa curiosidade e nosso bom comportamento enquanto pesquisadores. Ela é algo a que chegamos por meio de construções, para as quais todos os debatedores de espírito aberto podem contribuir. Mas boa parte do jornalismo contemporâneo, por estar comprometida com a verdade total — um compromisso muito adequado, diga-se de passagem, aos totalitarismos de todos os matizes —, não vê isso. Esse jornalismo, julgando-se crítico e esclarecido, engole opiniões como se fossem fatos e, o que é pior, tenta fazer com que nós também engulamos essa ficção que reduz a verdade na tentativa de fazer com que ela caiba no espaço estreito do noticiário.

Exercícios de Impressionismo nº 7: o Espírito de Montanha

Se tivesse nascido no litoral, eu teria incorporado o Espírito de Praia e sob a inspiração dele passaria, quem sabe, longas horas a olhar o mar desde o amanhecer. Mas eu sou do interior e, como os interioranos, vivo sob o Espírito de Montanha. Quando abro a janela para a manhã de outubro, o que vejo são morros que se juntam a outros morros para formar uma paisagem de profundidade oceânica. Na linha do horizonte, esse mar de terra firme se une ao céu, e meus olhos afoitos deixam tudo para trás e mergulham na paisagem. Quando me dou conta, estou quase me afogando na contemplação das ondas de infinito.

sábado, 10 de outubro de 2009

Degustando a noite de sábado

Dediquei parte da noite a reflexões sobre a minha já antiga queda pelo vinho. É comum que o apreciador pergunte a si mesmo, em algum momento da vida, quais são os vinhos que melhor expressam suas aspirações. Sem a pretensão de esgotar o assunto, que é vasto, muito menos a de dar sobre ele a última palavra, tenho cá a minha escala de avaliação. Personalíssima, ela não serve a ninguém além de mim, mas nem por isso a julgo ruim. Além disso, ela tem critérios simples, o que me parece uma de suas grandfes vantagens.
É bom vinho, segundo a minha escala avaliativa, aquele que leva ao sonho e não ao sono. A melhor casta vinífera, por sua vez, é a que mostra que se podem degustar momentos vividos, tanto quanto porções de líquido, e que cada instante, para quem o experimenta, tem um sabor único e irrepetível. Está no ponto, a meu ver, a bebida que traz uma confirmação saborosa para a ideia de que cada coisa tem o seu tempo. Por outro lado, o melhor bouquet é o que educa o nariz para as muitas nuanças de odores das quais o mundo é feito.
É digna de altas notas a garrafa que, chamando a atenção para o cultivo da uva e a sua transformação em líquido, permite vislumbrar a obra de arte que existe em todo trabalho bem executado e a dignidade de todos os ofícios exercidos como ato de criação. Merece o rótulo de obra-prima, enfim, quaisquer que sejam seu tipo e suas características, o vinho que proporciona a convicção de que o amargo e o doce são os dois lados de uma mesma moeda ou, se preferirmos, os dois elementos que se alternam para dar sabor à existência.

Oficina literária: elogio da igualdade

Há uma maneira eficaz de estragar um bom poema ou uma história promissora no momento em que estão nascendo. Ela consiste em tentar escrever a partir do Ponto de Vista do Olho de Deus, com a pretensão de lançar um olhar do alto, capaz de abarcar numa só vista o bem e o mal, o ontem e o hoje, o começo e o fim. Há um paradoxo na literatura: quanto mais assumidamente humano é o olhar que o autor lança ao mundo, maior a amplitude de visão que sua obra conseguirá; e quanto mais pretensão ele tiver de possuir uma ideologia ou ideia que julgue capaz de elevá-lo a uma condição superior ao restante da humanidade, mais limitado se encontrará.
A grandeza da literatura não será nunca a dos autores que conseguem ver além do mundo, pois um olhar além do mundo já não seria humano, assim como não seria compreendido. Essa grandeza é a dos homens e mulheres que se assumem transitórios, contingentes e iguais a todos os demais homens e mulheres em sua condição de habitantes do tempo e do espaço. Pertence a esses entusiastas da igualdade o dom de se fazerem entender e amar por seus leitores e, por força desse amor, deixar seus passos marcados na estrada da história. E aqui me lembro do velho e cada vez mais atual Walt Whitman (na imagem acima), o arauto da Democracia e da fraternidade, que numa de suas Folhas de Relva profetizou:
Alguém só pode compreender os seus iguais
ou os seus semelhantes,
Como as almas apenas compreendem as almas.