sexta-feira, 26 de abril de 2013

Memento mori

Para Letícia Palmeira, Mariza Lourenço, Carla Maia de Almeida, Silvana Tavano, amizades virtuais com que a vida me presenteou nos tempos em que eu tinha tempo para a web.

Sim, são muitos os perigos desta vida.
Ainda maiores, por certo,
hão de ser os deste ofício,
- ou será vício? -
de recompô-la em palavras
que saem, furtivas, do canto mais fundo do peito
após burlar a vigilância severa da razão.

As frases assim revividas,
em sua traiçoeira docilidade,
terminam por apertar de novo o peito
e sufocar outra vez a garganta
quando o lápis da memória
refaz no papel o traço do vivido.

Escrever é, então, rir duas vezes com a mesma alegria
e padecer em dobro os mesmos males.
E nessa felicidade trazida do limbo
e nesse padecer que sai da sombra
há um matiz sutil de surpresa
tirada de baú empoeirado no sótão.

Mas que ninguém se engane
com essa reescrita do vivido.
Dor e prazer, habitando fora do tempo,
fazem um dia durar um ano,
assombram enquanto embalam
e lembram que não se brinca impunemente
com palavras feiticeiras
que tomam a carne morta do passado
e a ressuscitam, pulsante, no presente.

Imagem: Willi Ronis

2 comentários:

Silvana Tavano disse...

Márcio, todos nós temos cada vez menos tempo para tudo!
Bom ter notícias suas e com um poema tão inspirado!
Silvana

Anônimo disse...

E não comeu ninguém!
Que coisa. :/