quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Balada agnóstica


Quando morrer,
Vou indireto para o céu.
Chegarei lá, se puder,
De modo oblíquo,
Como quem caminha ao léu.

O caminho tortuoso se explica:
As dúvidas acumuladas
Nestas décadas de vida
E a desconfiança dos dogmas
Podem me ser muito pesadas.

Com tal peso nos ombros
Talvez eu desça às profundezas
E veja, em sua fúria,
O coração dos vulcões,
Ou a raiz das correntezas.

Se não estiver tão pesado,
Pode ser que voe um pouquinho
E plane sobre estradas e avenidas,
Qual turista curioso
A olhar de cima o burburinho.

Nas alturas ou precipícios,
Estarei conformado à incerta sorte.
Afinal, por que busquei evidências
De que existe um reino feliz
Numa vida além da morte?

E quem me mandou perguntar,
Como criança de língua inquieta,
O que foi feito das almas
Dos que morreram antes da revelação
Que ensinou ao mundo a fé correta?

Pior: por que eu quis saber
Sem medir o tamanho da heresia,
Por que cada credo se diz o único verdadeiro
Já que são tantos no planeta,
Todos jurando sua ortodoxia?

Sim, vou indireto para o céu,
Ou, quem sabe, para o inferno.
Como um pagão, sigo fazendo perguntas,
Sem saber se me elevam às paragens celestiais
Ou me precipitam ao fogo eterno.

Imagem: Herbert Arthur Hess (1901)

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