terça-feira, 24 de março de 2009

A flor que não cresce na academia


Boas e más notícias a respeito do ofício de ensinar a ver beleza

Desisti há um bom tempo da ingrata tarefa de definir a poesia. Não sei se é música feita com idéias, como queria Ricardo Reis, se é pura liberdade ou a matemática da emoção, como a entenderam outros, ou ainda um fugidio estado de espírito que se tenta fixar em palavras. Isso não é importante. Melhor do que definir a poesia é experimentá-la.
Presume-se que a escola, em especial a universidade, existe para, entre outras coisas, ajudar os interessados a experimentar a poesia. Quando assumi o risco de me colocar diante de um grupo de pessoas dispostas a me ouvir falar e a ler o que rabisco no quadro negro, era esse papel que eu tinha em mente desempenhar.
Agora, anos depois, tenho dúvidas quanto a esse papel. Estou convencido de que se pode falar a respeito de autores e livros, mas não se pode ensinar a experiência da poesia. A má notícia é que, se alguém precisa da crítica acadêmica para experimentar a poesia, provavelmente não a experimentará. A crítica pode desmontar brinquedos feitos de palavras, mas não pode brincar com eles, muito menos ensinar a brincar.
A boa notícia é que, à revelia dos professores e da academia, tão ciosos de sua autoridade e de seu autoconcedido papel de condutores da sensibilidade alheia, a poesia vem florescendo, dentro e fora dos livros, cultivada por corações e mentes que muitas vezes não têm diplomas, mas têm sensibilidade. E, pelo que me consta, continua a demonstrar um lírico desdém pelos professores e críticos que preferem classificar palavras a sonhar com elas.

6 comentários:

Luciana F. disse...

Olha, poesia é o que academia não consegue ensinar...Ensina-se métrica, ensina-se escola, ensina-se estilo...Mas poesia é tão mais...Tempos atrás encontrei o primeiro livre de poesias que ganhei, aos 8 anos e entendi muita coisa do que sou hoje, do meu lirismo, do meu idelismo...Meus pais tinham bem essa noção de que a literatura abre a mente, mesmo que, na infâcia, eu lesse as poesias e fizesse apenas desenhos para representar minha interpretação...Poesia se aprende, mas não se ensina....Abraço.
Ah, o livrinho era Lili inventa o Mundo, do Mário Quintana, de quem, mais velha, virei fã incondicional e sou até hoje...

mariza disse...

concordo com a Luciana.

mas tenho cá certas impressões que me foram, inclusive, confirmadas por uma cara amiga que, a seu exemplo, Professor, também cursou letras e escreve excepcionalmente bem. essa moça, à época pós-graduanda, apresentou ao professor, renomado crítico literário, um livro que pretendia publicar, como de fato publicou, anos depois. foi massacrada. e não fosse sua determinação, teria desistido ali. não desistiu, para felicidade daqueles que tiveram a honra de ler seu livro. então, penso eu que pior do que não ensinar é desestimular a tentativa de aprender. você, eu sei, não é assim, mas muitos são, especialmente aqueles que sucumbem à fogueira de vaidades existente no meio. se o talento existe e é necessário, ele só pode se desenvolver com boa vontade, esforço e estímulo.
em contrapartida, para quem não quer aprender, não há santo que ajude, quanto mais um professor dedicado.
poesia é experimentação de quem aprende e de quem ensina, pois não há como negar suas diversas faces e a maneira como a lemos aos 20, 30ou 40 anos.
e eu devo ter escrito um monte de besteira. é o adiantado da hora. releve, por favor... hehehe *;)

um beijo.

Letícia disse...

Eu acho que poesia é como marca de nascença. Eu disse isso alguns dias atrás. Não adianta saber as regras. Existe algo mais que nem todos conseguem alcançar.

Mai disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mai disse...

...A poesia para mim é assim como a solidão - uma criança estigmata .
Nas mãos, suas chagas...
E as chagas nas mãos de quem escreve, são marcas que sangram por toda vida.
Escrever dói. Tu sabes bem.

Saudades sua.

Bjs.
Mai

Estás bem?

nanda disse...

publiquei este seu texto em viver e sentir, fiz um comentario... é exactamente o que penso