segunda-feira, 23 de março de 2009

A blogosférica miscelânea e seus antepassados


Cortázar, o avô argentino dos blogues literários

Um dos debates que vêm apaixonando a ainda engatinhante crítica especializada em blogues literários é a origem da miscelânea de gêneros que torna alguns deles tão interessantes. Os palpites críticos podem ser divididos em dois grupos: o dos que reivindicam para a blogosfera, de modo exclusivo, a criação desse gênero e os que vêm nele um desdobramento de um gênero existente antes do advento da internet.
Tenho a respeito uma opinião de meio termo. A mistura de artigo, ensaio, crônica, conto, diário, poesia e imagens que se encontra hoje em alguns dos melhores blogues é, no meu entender, filha legítima da web e não poderia ter florescido senão com os recursos multimídia que ela coloca à disposição dos autores virtuais. Foi o que eu disse, aliás, em minhas "Teses sobre a Blogosfera", publicadas aqui.
Mas nada surge do nada. Essa mistura faz parte de uma linhagem e tem, sem dúvida, seus antepassados na literatura impressa. Um deles está em "Último Round", do argentino Julio Cortázar (1914-1984). O livro, que apareceu em português no ano passado, em bem cuidada edição da Civilização Brasileira, com tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht, é uma autêntica miscelânea blogosférica feita antes da blogosfera.
Os dois volumes em que a obra foi lançada em português enfeixam textos dos mais diversos tipos, publicados por Cortázar originalmente em 1969, quando já morava na França. Fica evidente na obra a estética do fragmentário e do descontínuo, dois dos traços típicos da blogosfera literária. Também está lá a estética da colagem, que os autores de blogues tomaram emprestada da arte moderna e popularizaram no mundo virtual.
Embora respirando o clima do movimento cultural de Maio de 68, "Último Round" não está datado. Juntando cultura popular e erudita, outro traço da blogagem inteligente, o livro tem uma novidade essencial que justifica sua publicação no Brasil 40 anos após ter surgido na Europa. É possível que, ao lê-lo, os autores de blogues em busca da árvore genealógica à qual pertencem descubram em Cortázar seu irrequieto avô argentino.

3 comentários:

Clea Pinheiro disse...

Há pessoas que devem falar ou escrever, porque fazem um grande bem a quem os ouve ou lê. Obrigada.

Letícia disse...

Cortázar é avô dos Blogs? Eu gostei disso. Ao menos alguém de respeito. Se fosse o Bill Gates o avô, eu fecharia meu blog hoje mesmo. Gostei muito da visão. Colagem que retrata movimento modernista. Vai ver estamos mesmo fazendo isso.

mariza disse...

bingo, Professor!
eu não pensaria nada igual. seu meio termo é o correto. não, não é meio termo coisíssima nenhuma. é uma terceira corrente. sua visão é genial e, sem qualquer adulação, digo que das críticas que tenho lido, ou das tentativas de se compreender essa pluralidade, a sua é a melhor.
(ah sim, este é o 'eu amo tudo isso' parte II)

e eu ri muito da possibilidade de Bill Gates ser nosso avô. imaginou, Letícia? a gente é milionária e nem sabia... hehehehe.

beijo num, beijo noutra.