sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Verdades encontradas no fundo da garrafa



Elogio da incompletude




Pessoas muito bem resolvidas

têm nos olhos a expressão vitoriosa

de quem não hesita. Vistas de perto,

parecem o tipo de gente que está à vontade

equilibrando-se entre dois prédios de 20 andares

em dia de vendaval.

Pela desenvoltura de seus gestos,

sem vestígio de acanhamento,

conclui-se que conhecem o passado e o presente

e suspeita-se de que sabem, de algum modo,

como será o futuro.

"Medo" parece-lhe uma palavra

empoeirada dentro do dicionário.

"Dúvida" lhes soa como um conceito abstrato

com o qual não se deve perder tempo.

"Fragilidade" não é vocábulo do seu idioma.

"Solidão" é a palavra usada por aqueles

que não sabem bastar-se a si mesmos.

Quando têm problemas,

as pessoas muito bem resolvidas

dão a eles o tratamento pragmático

que dariam aos contratempos.

E jamais se desesperam.

Mesmo nas piores circunstâncias,

são firmes ao falar

e falam com o timbre de quem tem razão.

Contestadas, riem um riso superior,

como quem vive na estratosfera das certezas

e se compadece das pessoas comuns lá embaixo,

incapazes de se elevarem do chão de suas inseguranças.


***Alinhar ao centro


Todas as noites, antes de me deitar,

agradeço a Deus por não ser muito bem resolvido

e peço a Ele que me conserve assim.

Não sei o que seria de mim

sem minhas hesitações, minhas inseguranças,

minhas impaciências, minhas dúvidas e ignorâncias.

Não ouso sequer imaginar

aquilo em que eu me transformaria

se perdesse meu sentimento de incompletude.

Deus me livre da perfeição.


(Escrito depois de quatro taças de um encorpado Periquita, safra portuguesa de 2006, no meu "Caderno de Verdades Encontradas no Fundo da Garrafa")

5 comentários:

Letícia disse...

É um sério problema esse. Todo mundo quer ser resolvido, saber de tudo, sentir tudo e ainda sair lucrando com as dores dos outros. Não gosto de me dizer mulher resolvida. Dessa forma, eu estaria morta. A vida é sempre uma busca. Farei a mesma oração que você. Vou agradecer a Deus por me deixar ter dúvidas e insegurança.

E vou dizer. Gosto muito de seus textos. Muito mesmo. E não faço análise crítica. Eu tento interagir com o que você diz.

Bjos.

Mai disse...

o pior é que no fundo da garrafa é q se vê que naquele instante ela que te encheu de alguma coisa, parece estar ela mesma 'vazia'...
Talvez teu texto me inspire a pensar nisso e não creio que ninguém 'lucre' com as dores alheias.
Tenho muita dúvida se existe alguém 'bem resolvido' nesse 'Dante' pós moderno.
Sei lá, Márcio o que é ser bem resolvido?
Um problema matemático pode ser mas o humano?

não creio, amigo. Não creio e duvido de quem o afirme.
Bonecos de um e noventa e nove com aquele risinho plástico, são bem resolvidos.
Mas eu li a advertência. Aquela porcaria é tóxica.

Te deixo um abraço e minha loucura.
Putz fiquei com sede nostálgica da tua bebida...
Beijos.
Mai

Guilherme Pereira disse...

Brilhante o teu texto. Fez-me lembrar muito um muito antigo poema do meu amigo Eduarto Pitta e não resisto em transcrever-te onde fazes magicamente a síntese de quase tudo:

"Não ouso sequer imaginar aquilo em que eu me transformaria se perdesse meu sentimento de incompletude. Deus me livre da perfeição."

Perfeito.
Sobre o texto anterior e o bom vinho português, espero que, quando vieres até estes lados,regresses ao Brasil com uma meia dúzia de garrafas - Douro e Alentejo, cá do sítio, oferta minha obviously - que te ajudem a melhor a perfomance das sextas-feiras.:)

Um Abraço!

Guilherme

P.S.
A Erica, que está aqui no escritório a trabalhar, pediu-me para te mandar um beijinho.
Fica virtualmente endossado.

G.

Guilherme Pereira disse...

Caro Márcio:

Tanto eu como a Erica - que vos temos a AMBOS na lista dos blogues favoritos que seguimos - verificámos que a CLEA nos barrou o acesso.
És capaz de saber o que se passa?
Desculpa o incómodo.
Abraço!
G.
Guilherme

Rita Pimenta disse...

Olá, daqui fala/escreve Rita Pimenta, do blogue português Letra Pequena. No entanto, não venho falar de literatura infantil, mas de vinho...

Hoje estive nas caves José Maria da Fonseca (Azeitão) e ao chegar aqui gostei de ver a imagem de dois Periquita. Mais ainda, adorei que usasse a palavra "safra", que está em desuso em Portugal e que acho muito expressiva. Por cá tem vindo a ser substituída pelo vocábulo "colheita". Nada contra, mas menos musical...
Será efeito do tinto (Garrafeira CO de 1999) que se consumiu esta noite em boa companhia?

Um abraço e obrigada pelas palavras simpáticas que tem dirigido ao (e sobre o) Letra Pequena