quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Sobre garçons, varredores e escritores

A psicanálise do cisco e dos restos de bolo na mesa
Tenho inveja de garçons e varredores. Na adolescência, quando descobri que a alma do escrever mora nos olhos e ouvidos, e não nos dedos e artifícios de estilo, passei a achar que esses dois ofícios têm muito a ensinar. Por respeito a si mesmo e aos leitores, ninguém que se disponha a colocar idéias na página em branco deveria fazê-lo sem antes passar por uma espécie de estágio probatório com eles.
Garçons e varredores, talvez por força do trabalho que exercem, estão imunes ao vírus do excesso de referência e atenção a si mesmos. É desse vírus a culpa pela impiedosa epidemia que devasta parte considerável da literatura e que em nossa época tem tornado tetraplégicos muitos talentos literários promissores, incapacitando-os de perceber as coisas do mundo como uma grande provocação da curiosidade.
Esse quadro patológico não atinge garçons e varredores. Nos restaurantes, lanchonetes ou bares de qualquer nível, nos aeroportos e terminais rodoviários, eles circulam com a vitalidade de quem não está afogado nas próprias profundezas. Estão atentos aos outros, enquanto aqueles a quem servem em geral têm olhos e ouvidos apenas para verem e ouvirem a si mesmos, num espetáculo infindável de autocontemplação.
Com garços e varredores, é diferente. Eles olham pela janela da vida e ouvem o seu burburinho. Só garçons e varredores descobrem com facilidade a diferença entre a birra que as crianças dão quando querem fazer algo e não são autorizadas e a birra que dão para não fazer o que lhes pedem. Só eles distinguem à primeira vista de qual dos cinco tipos de choro de mulher se trata em cada caso.
Sei que outras profissões permitem observar pessoas, mas não como os garçons e varredores. Médicos e policiais também fazem observações por dever de ofício, mas têm autoridade sobre as pessoas. E a autoridade, quando brilha nos olhos, estrangula, estupra e esquarteja a curiosidade. Com autoridade é impossível olhar o desenho geométrico do cisco no chão e fazer a psicanálise dos restos de bolo na mesa.
Autoridades não percebem que as pessoas se dividem entre as que brincam com as tampinhas de refrigerante e as que não brincam. Não sabem que canudinhos e palitos torcidos ou quebrados são quase um tratado sobre a alma humana, cada tipo de torção ou quebra correspondendo a uma disposição de espírito. Têm dificuldade para descobrir que a areia dentro do cinzeiro forma a imagem de uma montanha.
Para garçons e varredores, tudo isso é visível. É claro. Ao voltarem para casa depois de um turno de trabalho, eles podem avaliar o quanto o mundo é variado, complexo e profundo. Sem solenidade, sem alarde, com a nobreza de quem se sente bem servindo, eles atingem a capacidade de viver e aprender, esse fruto abençoado reservado aos quem têm a coragem e a humildade de não se julgar o centro do universo.

12 comentários:

Mai disse...
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Mai disse...

Esse teu texto daria um 'parecer' psicológico daqueles bem densos mas não é o caso de fazê-lo, agora.
Patologias e diagnósticos à parte percebo que a psicologização ou a psicanálise 'dos botequins' ou dos 'salões de beleza' são cada dia mais SUS e menos Copa D'or ou seja, cada um é o psicanalista que quiser e faz à análise que desejar, também.
Uma coisa é interessante. Toda língua é um ouvido, um nariz e um par de olhos. Esse texto mostrou-me que Uma língua além desses sentidos, gosta de vassouras e não frequenta o 'AA' portanto é bêbada.

Se toda língua é bêbada, os gregos eram todos bêbados e Freud, 'Pai da psicanálise' gostava de cheirar e beber 'coca'...

Os garçons e os garis poderiam ser excelentes escritores, sim.

Sabe porque?
O filme 'O Leitor' já está em cartaz e no roteiro há uma espécie de Sherazade 'Pós moderna' que, analfabeta, tem um passado negro em que foi uma 'agente nazista' que comia criacinhas...

Essa Sherazade o que é pior, já naufragou no TITANIC...

Márcio,
é uma delícia ler teus textos e eu hoje queria um garçon.
Não prá fazer psicanálise mas prá beber uma boa dose de Whisky que o dia está prá se varrer...

Abraços,

Mai.

Letícia disse...

Muito bom, Márcio. E novamente, se é que já fiz isso, tiro o meu chapéu. Não uso chapéu, mas esse texto vale por mil chapéus. Eu li e para mim não se trata apenas de uma análise psíquica. É crítica. Mas é leve e somente um varredor ou garçom ou aquela pessoa que fica sentada na entrada de um banheiro de um restaurante, vivendo do que vê ou ouve, pode perceber a sutileza. Porque é no silêncio e na simplicidade que se percebe. Muitos estão atolados dentro de seus próprios eus. Uma perda de tempo? Não sei. Mas como eu disse. Simplicidade e sutileza não são artefatos que possam ser usados por muitos. Você sabe como usá-los. E eu parabenizo você por sua percepção.

mariza disse...

não sei, posso estar errada, mas percebo que quanto mais estudamos, mais nos especializamos, nossa vida se afunila, nossas rodas se restringem e nos tornamos auto-referentes demais e dispostos demais a demonstrar, por motivo de vaidade, o quanto valemos. se é que valemos alguma coisa. talvez fizéssemos bem mais e melhor por nós mesmos se parássemos algumas vezes ao dia, no beto do cachorro-quente, homem sábio tá ali. e nem precisou de livro e estudo e banco de escola para saber com perfeição o que, de fato, realmente importa. beto do cachorro-quente é cheio de contas pra pagar, trabalha a morrer, não viaja de avião e me parece muito satisfeito. ao contrário da maioria, que busca a tal de satisfação, a tal da felicidade em conceitos e teorias. a maioria sempre busca demais e acha de menos, porque o melhor, o possível, e, sim, a tal da felicidade estão sempre tão à mão, que aos olhos cultos, enevoados pela sofisticação do aprendizado acadêmico, parecem não existir.
muito bom o texto, sobretudo pela reflexão a que nos remete.
boa quinta, Márcio.

Hanna disse...
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Hanna disse...
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Clea Pinheiro disse...

Há pessoas que trabalham para comprar coisas e pagar as contas, às vezes tão irritadas saem para seu trabalho, que se seu filhinho perguntar – para onde está indo pai? – para o inferno!
Outras pessoas acreditam que, de algum modo, seu trabalho contribui para que o mundo seja melhor. Estas são felizes, não importa a profissão, e possuem uma consciência ampla.
Só mais uma coisinha: o dinheiro trás felicidade sim, pra quem já é feliz.
Parabéns pelo texto Márcio, mais uma vez.

Ju disse...

há, muito bem observado!
tb admiro muito os taxistas, sabia? sempre ouço histórias tão interessantes deles... ó ser humano é incrível...
beijos!
: )

Luciana F. disse...

A profundidade da busca e a intensidade do conflito interno, de modo geral, é mais acentuada nas pessoas com mais poder e treino de reflexão.
Já a capacidade observação independe dessa escala. Mas não concordo inteiramente na maior habilidade dos garçons, taxistas, garis, etc Exemplo disso são seus textos, que demonstram o enorme poder de observação e análise contemplativa advindos de uma pessoas altamemente intelectualizada. Digo isso porque a mera observação sem a consequente análise me parece inócua. Abração!

yehuda disse...

excelente no contexto, excelente como texto,e eu da minha parte acrescentaria os motoristas de táxi,deles ouvi muito e sempre os incentivei prum papo,e suas histórias motivaram e inspiraram muitos dos meus escritos
parabens e um abraço

yehuda disse...

excelente no contexto, excelente como texto,e eu da minha parte acrescentaria os motoristas de táxi,deles ouvi muito e sempre os incentivei prum papo,e suas histórias motivaram e inspiraram muitos dos meus escritos
parabens e um abraço

Márcia Alberti disse...

Olá, sua página é um convite a leitura. Parabéns!