sábado, 2 de maio de 2009

A moderníssima pedagogia dos alfarrábios

O prazer inigualável de achar o que não foi procurado
Praticamente desisti dos livros novos. Há neles dois problemas sérios. O primeiro, de ordem material, é que livros novos custam um preço que me parece sempre acima do razoável. Ganância das editoras? Gula dos distribuidores e vendedores? Matéria-prima e insumos caros? Falta de uma política para o setor? Não me considero capaz de dizer, com segurança, qual desses fatores é o principal responsável pelo preço elevado de um produto que deveria ser barateado para circular mais. Só sei, por depoimento de alguns autores sérios que conheço, que não é por esperteza dos escritores, os quais, a despeito de serem a origem do mercado livreiro, limitam-se, via de regra, a acatar as regras impostas pelo mercado.
O segundo motivo que me leva a desistir sempre que possível dos livros novos é de ordem pessoal. Acredito que a curiosidade esteja para a inteligência como a ginástica está para os músculos. Ambas podem ser exercitadas com proveito. Para mim, a melhor ocasião de exercitar a curiosidade, ampliando seus horizontes temáticos, é o momento da compra descompromissada, aquela em que de uma estante da livraria se passa a outra ao sabor da casualidade, com a possibilidade de se fazerem descobertas surpreendentes. Desnecessário dizer que esse diletantismo custa caro em livrarias que vendem livros novos. Nessas, um carrinho, ainda que cheio apenas pela metade, resulta numa pequena fortuna.
A salvação de quem não quer ficar assustado no caixa é apostar nos sebos, essa benemérita instituição que parece ter surgido junto com as livrarias. Sou frequentador assíduo dos sebos, aos quais faço questão de comparecer pessoalmente. Os sebos virtuais, como as livrarias virtuais, são úteis para quem já sabe o que quer. Mas o meu prazer é o de não saber o que quero e de ir descobrindo livros ao sabor das provocações que vêm de cada estante. Há um caráter lúdico em passar da prateleira de astronomia para a de culinária, em folhear um tratado de filosofia e, a seguir, um manual de jardinagem. É nesse pulo de uma coisa para outra completamente diferente que a minha curiosidade se excita.
Para isso, os sebos são ideais. Só eles nos permitem o prazer indizível de encontrar os livros que não foram procurados e que, ao serem achados, se revelam verdadeiros presentes para a inteligência. Aliás, as coisas que não foram procuradas — e as pessoas que não foram procuradas — costumam ser dádivas, muitas delas transformando-se em companheiros para toda a vida. Daí que os sebos sejam ideais para o exercício da arte de não procurar. Há uma vantagem em quem não procura, que pode ser justificada até mesmo filosoficamente. Quem não procura um livro ou alguém está em disponibilidade, com o espírito livre. E é na disposição de experimentar livremente que se dá o acréscimo de conhecimento e vivência.
Os sebos têm ainda a vantagem de fugir às exigências de mercado. Nas livrarias, até mesmo pela disposição de livros nas prateleiras, somos levados a vislumbrar preferencialmente lançamentos ou produtos que as editoras desejam fazer circular. Aliás, essas mesmas exigências e apelos mercadológicos costumam impedir o leitor desavisado de avaliar com calma o real valor da obra, o que só pode ser feito com tempo. Nada como alguns anos para mostrar a importância ou desimportância de um livro. E, se não fosse o bastante, ainda seria preciso lembrar que, para os amantes de livros, só os sebos oferecem o prazer de se encontrar aquele título pouco conhecido e já esquecido de um autor famoso por outras obras.
E só os sebos satisfazem plenamente o gosto dos bibliófilos pelo exotismo. Em que outro lugar se pode achar, na mesma pilha de livros, às vezes empoeirada, um tratado de adestramento de falcões da Idade Média, reeditado por uma pequena editora portuguesa com figuras e vinhetas deliciosas, ou um já esquecido livro de confissões em que uma grande escritora narra a viagem que fez a uma praia remota da América do Sul? Que outro estabelecimento pode oferecer versões de clássicos da literatura erótica do século XVIII, reeditados na época da Primeira Guerra com linguagem colorida? Livros como esses, que não procurei, têm sido os grandes achados da minha vida de leitor em busca de alfarrábios.

2 comentários:

Mai disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mai disse...

Mai disse...
Márcio,

tu terás que confessar, publicamente que sentiste a falta da minha irreverência por aqui, tá bem?
Porque é assim: eu tenho crises de espirros com esse troço de poeira mas eu sou absolutamente, apaixonada e vou te dizer que chega a ser coisa quase que libidinosa, mesmo, o que eu sinto de 'tesão' por livros velhos. Isso não é metáfora, não. É verdade. Ai eu entro em um alfarrábio (sebo) e fico sebosa de poeira mas não dou um espirro. Crês nisto?

E já encontrei em Belém do Pará uma primeira edição de 'Os Sertões' - aquilo era um tesouro. Pois roubaram-me e óbvio, não pediram resgate.

Eu não resisto e vou confessar porque apesar de saber de alfarrábios e alfarrabistas, eu vou à sebos, mesmo.
Sabes que eu tenho a mania besta de partir as palavras, né?
Eu as quebro ao meio prá ver se elas sangram ou se me mostram o esqueleto para que eu descubra se uma determinada palavra que me foi dita ou que ainda venha a ser, escondem outro significado, sabes.
Assim, é quase que automático eu olho uma palavra e vejo duas ou tres ali dentro escondida e denuncio porque gosto de brincar com as palavras .

então faço assim, ó:

ALFA_R_RABISTA -

ALFA_
R
A
B i
O
ai, Márcio, como é que a pessoa aqui, vai conseguir pronunciar essa palavra, sem se lascar de rir? Não tem jeito, sabe? Então é uma palavra bem sofisticada, que continua como SEBO porque é sebosa...
Ou não?


Diz se não sentias a minha ausência?
Tem um texto lá que eu gostaria de saber tua leitura, tá bem?

Beijos,

Mai