sábado, 2 de maio de 2009

Bendita seja a língua solta da blogosfera

Abaixo os embalsamadores!
Na galeria de tolices ditas sobre a web, há que se reservar lugar destacado à idéia de que a blogosfera empobrece a língua ao incorporar novidades de vocabulário ou construção sintática. Quem sustenta esse ponto de vista parece sofrer da ingenuidade crônica que leva a acreditar que existe uma língua acabada e irretocável e não uma língua viva e permanentemente aberta a mudanças e inovações.
Quem escreve, na web ou fora dela, só tem duas formas de lidar com a língua: ou a trata como um corpo de informações a ser mantido longe de modificações ou como um conjunto de peças que podem ser combinadas e recombinadas de infinitos modos. Os primeiros são os embalsamadores, que tratam a língua como um cadáver. Os segundos são os inventores, que fazem dela uma vivência lúdica de experiências.
Não é preciso esforço para perceber que os embalsamadores respiram o ar embolorado de um passado ideal, enquanto os inventores aspiram o ar fresco do presente e antecipam os ventos do futuro. Estes dão frutos e neles se perpetuam; aqueles estão fadados ao cemitério do esquecimento. A invenção e o experimento moram na essência da língua. O escândalo linguístico de hoje é o lugar-comum de amanhã.

1 comentários:

Mai disse...

HUHU!!!

Márcio, eu estou jogando flores prá você, sabe?

Deixa te contar um segredo:
Eu frequento círculos de adolescentes e adoro lidar com eles. Aprendo novas conotações das palavras, sabe?
Porque trabalhando com o discurso do sujeito, não posso me prender, unicamente ao que está descrito no léxico. Se assim eu fizer, eu me estrepo, porque eles inventam novos sentidos, e a palavra precisa estar caminhando nas ruas e não nas estantes.

Óbvio, o português bem escrito e falado é muito bonito de se ler e ouvir.
Mas eu preciso dialogar.
E se um jovem de 17 anos chegar para mim e disser estou 'bolado' e eu não conseguir compreender, posso pensar muitas coisas e não chegar ao que ele falou.
ex:
"Estou bolado" disse o jovem.
Sem saber o que isto significa, eu poderei pensar que:
1) ele estava cheio de bolas pelo corpo (manchas circulares, alergia)
2) será que ele engoliu bolinhas?
(se drogou?)
3) o que será que esse rapaz está fazendo com as suas bolas? (testículos...risos)
4) será que ele é um atleta compulsivo e vive comprando milhares de bolas de todos os esportes,(comprou caixas de bolas e milhares delas, estão espalhadas pela casa ele se sufocará em bolas)
Que nada!
O rapaz queria dizer que estava impressionado. somente isto.
Estar 'bolado' para ele era
"estar chocado, impressionado".
Pode isto?

Em algum livro, em algum dicionário eu saberia o que aquele jovem estava falando?

Então eu preciso ir onde ele está, ouvir e considerar, que há nas ruas algo que se fala e eu jamais havia pensado. Sair do conforto do que eu sei.
Porque aprender é suportar um não saber.
Para que eu trabalhe com a palavra do outro, eu tenho que suspender tudo o que eu supunha saber e que não se esgota, em termos de ser língua viva e não arcaica.
Para trabalhar com a palavra viva, terei que me supor, não sabendo o que ele fala.
Ai e somente assim, eu aprenderei que 'bolado' significa chocado, impressionado, para muitos, muitos jovens.

E há também a experiência inversa.
Jovens também reclamam que adultos falam complicado. Há blogs com textos de escritores brilhantes que não são lidos porque os jovens que navegam pela net, acham um 'saco' (saco não é aquele de pão nem outra vez o que protege o semem - saco é chato, mesmo)

Pela lei natural daas coisas, eu morrerei antes que os meus netos tenham a minha idade. Mas quero impor a ele que continue falando como um dinossauro rex falante.
Ai, eu digo para meu neto
cyber adolescente:

"Seria de bom alvitre que"....
Ou "de maneiras que"

Ah! Eles vão se estraçalhar de rir de mim. Vou provocar uma crise de risos e ainda serei ignorada ou ficarei deprimida porque não consigo me comunicar e direi oh! Deus oh! dia, oh! azar porque ninguém fala com velhos...

Bem a questão não é que eu com uma bengalinha na mão devesse falar com aquela voz toda fraquinha e falhada eu estou bolada, saca?!
Seria ridículo. Mas não haveria uma possibilidade de diálogo nessa interface de gerações?

Não sei, não sei só questiono porque impor?
a língua é dinâmica e viva.
Nisto eu creio.
Apenas isto.
E te dizer: não podemos também admitir os extremos, os excessos que eu leio nas mensagens
'emeesseênicas' dos jovens.
Alguns escrevem assim: (isto só prá provocar)
"eu axo" ai é de lascar!
eu, mai, não axo nada. Eu só axo que axar com X de xuxa é um lixo ortográfico, só isto.E não escreverei assim, nunca.(somente agora prá debochar...risos...)
e continuarei no trash...Axo também que aki com k é um lugar muito longe daqui. E axo k kem escreve assim naum consegue pensar direito na hora que tiver que fazer um trabalho científico e, fatalmente irá comprar uma monografia para poder se graduar em qualquer 'cursinho' de qualquer 'universidadezinha...'

Bem,
Você é o culpado, Márcio.
Fica "dando idéia para quem é loucida", fica!
Mas continua escrevendo assim
f%%dasticamente.
Assim me inspiras e os meus comentários se transformam em devaneios do nada prá lugar nenhum.

Mas sigo pensando em quais possibilidades de diálogo entre as gerações.
Beijos e obrigada
Carinho e admiração, sua aluna e rascunho de escritora...
Mai