terça-feira, 21 de abril de 2009

Imagens que convidam a pensar: as brumas de Turner

Rain, Steam and Speed - The Great Western Railway
("Chuva, Vapor e Velocidade" - 1844 - National Gallery, de Londres), óleo sobre tela de Joseph Mallord William Turner (1775-1851), expoente do Romantismo Inglês
Alguma coisa se perdeu quando o homem renascentista, cansado dos tons sombrios da Idade Média, fez surgir a estética dos tempos modernos, redescobrindo a exatidão e as linhas definidas dos clássicos e as transformando em parâmetro para a sua arte e a sua vida interior. O hábito de olhar tudo à luz do Sol de meio-dia deu origem a uma ideologia da clareza e da nitidez que, extrapolando seus limites, ameaçou o exercício do devaneio, tão indispensável para a saúde psíquica quanto o raciocínio exato.
Há nos pensamentos e sentimentos apenas esboçados uma riqueza que a luz plena não revela. É nas linhas e formas indefinidas da vida interior que mora a liberdade de pensar que a bruma esconde uma locomotiva ou que há uma árvore atrás da fumaça. Também é nelas, nos momentos em que temos a coragem de assumir a penumbra como estado de espírito, que as nuvens se transformam em cavalos, árvores ou casas e que a imaginação vislumbra na linha do horizonte uma realidade diferente.

2 comentários:

Liene disse...

Márcio,
"É nas linhas e formas indefinidas da vida interior que mora a liberdade de pensar..."
Considero este trecho como a tradução de uma das características mais marcantes do Romantismo: a subjetividade.
O olhar único e individual se vislumbra numa linguagem harmoniosa entre pensamento/sentimento; idéia/paixão; razão/emoção, que resulta, tanto na tela de Turner quanto no seu texto, numa expressão poética ímpar.
Um belo convite ao devaneio!

mariza disse...

esta é a primeira vez que não consigo comentar um texto seu. por me faltarem, talvez, as palavras exatas, ou quem sabe, ainda, por me faltar a ousadia necessária para admitir a minha penumbra.
de qualquer maneira, meu amigo, furto em parte o que disse a Liene para lhe dizer que, de fato, esse texto é "Um belo convite ao devaneio!"