quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

O homem que engoliu um sonho

Contribuição para um futuro Tratado Geral dos Males da Alma
Chega pela internet a notícia de que em Francisco Beltrão, no interior do Paraná, uma jovem médica do serviço de urgência foi acordada às quatro da madrugada no início da semana para atender a um paciente que relatava ter engolido um sonho. Para espanto da plantonista, ele exibia sintomas de mal estar que mostravam efetivamente o quanto estava incomodado com o sonho engolido.
É notícia que merece reflexão. Penso que, quando os catedráticos se lembrarem de redigir um Tratado Geral dos Males da Alma, será preciso fazer constar dele o caso desse homem. Acredito que seja o primeiro relato médico que se faz de um mal que, embora não figure no catálogo de doenças, está merecendo estudo e pesquisa.
Espero que a médica que atendeu o engolidor de sonhos de Francisco Beltrão desperte para a singularidade do caso e se debruce sobre ele com curiosidade ciéntífica. Pode surgir daí, quem sabe, uma nova frente de estudo na medicina. Tenho motivos para crer que a pesquisa será de grande utilidade, pois engolir sonhos é patologia que atinge a muitos.
Para provar isso, estou disposto a colaborar com a pesquisa fornecendo um relato semelhante. Trata-se de um sujeito de uma pequena cidade do interior que engoliu o sonho de continuar vivendo como se estivesse nos campos da região rural em que foi criado. Sabe-se que ficou meio imprestável para as coisas sérias e, para espanto de muitos, regrediu a um estado de criança, adquirindo o hábito de vagar sozinho por morros, rios e campos.
Relatos fidedignos dão conta de que esse cidadão, sem conseguir tirar de dentro de si o seu sonho, vai vivendo-o à luz do dia. Chega ao cúmulo de interromper seu trabalho (é um homem na casa dos 30 e tantos anos, com afazeres e responsabilidades) para olhar tatus-bolinhas, borboletas e pássaros. E há quem o tem visto, por mais de uma vez, arregalando os olhos ao ver estrelas cadentes na noite azul de Minas Gerais.

4 comentários:

mariza disse...

Márcio,

que bonito texto, meu amigo.
cheio de pequenos e profundos sinais que evoluem em direção a um significado bem maior, que é a capacidade de sonhar a céu aberto, sem vergonha, e feliz por fazê-lo. quantas pessoas, você conhece, têm essa disposição rara de estarem atentas aos sonhos? e de torná-los importantes? de não sufocá-los em detrimento de tantas outras coisas, na maioria das vezes, desimportantes?

que o moço de Minas continue sonhando e se espantando com o céu, com as estrelas, com tatus-bolinha, passáros e borboletas.
porque de sonhos é feita a vida.
e porque vale sempre a pena sonhar.
(ainda mais, quando a alma é assim, tão grande).

abraço.

mariza disse...

errei: o correto é pássaros

Letícia disse...

Um relato-ficção. Engolir sonhos ainda não é assunto de grande destaque e creio que não chegará a ser pesquisado por catedráticos. E melhor que não seja. Dessa forma a grandiosidade da história fica a salvo.

Lia Noronha disse...

Andamos mesmo...deixando os sonhos esmagados...e segimos a realidade como cães obedientes...acreditando num possível amanhã em que recuperaremos os tais esmagadinhos...ou mesmo o que restar deles!!!
Belo questionamento...pra esse menino-homem...que cresceu por dentro e por fora...é quase um gigante no pensar!!!
Bjins