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quinta-feira, 7 de maio de 2009

Pilulas Pensantes: quem tem medo dos novos autores?

Do provincianismo nosso de cada dia, livrai-nos Senhor
A maior parte de nós, apesar da ampla propaganda que se faz em torno das novidades literárias, dedica quase todo o tempo ao que já conhece. Na literatura e na cultura, tendemos apenas ao estabelecido. Mais de oitenta anos depois do apelo ao novo feito pelo Modernismo, ainda é à custa de esforço que abrimos os olhos ao desconhecido. Não admira que demoremos tanto a valorizar os novos talentos ou os antigos que remaram contra a maré.
Nosso atraso é crônico e vem de longe. Foi preciso que críticos e tradutores ligados ao Concretismo, nos anos 50 e 60 do século passado, nos mostrassem a riqueza de um Sousândrade, um Kilkerri, um Lewis Carroll, um Cummings, uma Emily Dickinson, um Arnaut Daniel, um Maiakóvsky e tantos outros que já haviam passado pela terra há décadas ou séculos sem que recebessem, entre nós, brasileiros, o devido valor.
O "nós" acima dirige-se aos professores, pesquisadores, críticos, editores e leitores esclarecidos dos quais é razoável esperar que saibam, pelo menos, distinguir o novo que sobressai contra o pano de fundo do comum. Mas quantos de nós percebem, por exemplo, a novidade entre poetas e contistas da blogosfera? Quanto tempo terá se passado até que tenhamos dado aos bons autores virtuais o reconhecimento devido?
Tinha razão Fernando Pessoa: navegar é preciso. Mas aqui, do outro lado do oceano, nós nos demoramos nos portos seguros do convencional. Falamos em içar velas e percorrer mares nunca dantes navegados em busca de continentes ainda não explorados. Muitas vezes, entretanto, não temos sequer a disposição de sair da beira das águas conhecidas de nossas piscinas e nos acostumamos a considerar como horizonte o muro que delimita nosso quintal.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Um viva ao contraditório!

A dialética do esclarecimento
Tenho em alta conta a polêmica de interesse público. Quando alguém discorda de minhas idéias e expõe argumentos que fundamentam sua discordância, fico sinceramente feliz. Afinal, a maior homenagem que se pode fazer a alguém que expõe os próprios pensamentos sobre um assunto é discuti-los de modo racional, tendo em vista o mútuo esclarecimento que é a razão de ser dos debates saudáveis.
Quem discorda de nós com propriedade e com argumentos sólidos frequentemente lê com mais atenção o que escrevemos do que aqueles que apenas concordam conosco, pois a discordância consequente é trabalhosa. Além do mais, a discordância nos dá duas possibilidades de valor inestimável: a de retificar nosso pensamento nos pontos em que ele está equivocado e a de torná-lo mais claro para nós mesmos e os outros nos pontos em que está correto.
As palavras acima servem de preâmbulo para que eu possa enaltecer o excelente nível dos comentários que recebi da professora Letícia Palmeira e da advogada Mariza Lourenço ao post que fiz sobre a originalidade da blogosfera, sob o título "Você escreve blogues? Então cuidado com a Síndrome do Segundo". Esse elogio, aliás, cabe a todos os meus comentaristas, embora alguns prefiram se manifestar por e-mail.
Um dos comentários que recebi ensejou, pela inteligência e perspicácia com que foi feito, uma tréplica minha que está publicada no próprio espaço dedicado aos comentaristas. Como o debate trata, entre outros pontos, da blogosfera, da pesquisa acadêmica e da relevância e qualidade de textos, bem como da erudição e de citações, aqueles que se interessam por tais assuntos talvez achem interessante passar os olhos pelos vários lados da questão.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Imagens que convidam a pensar: a relatividade de Escher


"Other World", de M.C. Escher (1898-1970), artista plástico holandês (xilogravura em madeira, 1947)
É difícil fixar de modo rígido os objetivos da educação. Ela deve formar profissionais, cidadãos, pessoas e tudo o mais que pode ser contido sob o adjetivo "humano". Ocorre que é tão vasto e profundo o humano, um campo em permanente expansão, que se torna impossível precisar seus limites e, em consequência, definir os objetivos do ato de educar.
É certo, porém, que nenhuma prática educativa da história foi bem sucedida sem levar em conta que se deve ensinar a ver a complexidade do mundo. O homem é tanto mais educado quanto mais capaz se mostra de distinguir as múltiplas faces da realidade. E será mais livre quando perceber que cada face pode ser vista de diferentes ângulos.
O inimigo dessa liberdade é o dogma, que não aceita o caráter sempre provisório e parcial das pretensas certezas. Assim, uma das características da boa educação é a de afrontar o dogmatismo, substituindo o conforto das verdades absolutas, que são inócuas, pela fascinante e desafiadora consciência da relatividade do conhecimento, que é sempre um ponto de vista.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Você escreve blogues? Então cuidado com a Síndrome do Segundo


Quando a erudição vira doença
Alguns autores de monografias e artigos científicos costumam exibir uma expressão superior ao ouvir a palavra "blogosfera". Fica claro nessa expressão um sentimento de superioridade, decorrente, talvez, de eles julgarem seus textos mais relevantes do que a produção média dos blogues. De minha parte, não temo pela relevância do conteúdo dos blogues, que são livres por essência e, na sua grande maioria, não reivindicam nenhum status que não seja o de veículo de auto-expressão de seus autores.
Não posso dizer o mesmo de algumas publicações virtuais acadêmicas. Fico preocupado quando leio títulos como "A recepção do conceito de denotação do primeiro Wittgenstein no ambiente acadêmico sul-americano: um estudo à luz de memoriais de congressos universitários". Títulos como esses, que estão para as universidades como a praga está para a lavoura, costumam padecer do que chamo de Síndrome do Segundo, mal que faz com que se analisem as coisas sempre "segundo o autor X ou segundo o autor Y".
Acho que foi a esse tipo de gente que Thoreau se referiu ao escrever no seu "Walden" que hoje há mais professores de filosofia do que filósofos. A diferença entre ambos é óbvia. O filósofo autêntico — e, por extensão, o escritor autêntico — pensa a respeito das coisas ainda que ninguém tenha pensado antes. O professor de filosofia — e, por extensão, os que adotam um tom professoral em seus escritos — precisa de uma citação para justificar até o fato de achar belo o pôr do sol. Os professorais não pensam: são imbecis com PHD.
Gosto de brincar com a idéia de um juízo final entre autores. Se Deus, nesse dia, entendesse por bem perguntar a cada escritor o que seus textos fizeram de positivo para tornar a vida melhor, os autores de blogues poderiam dizer, pelo menos, que cultivaram o saudável hábito de auto-análise em diários virtuais ou buscaram a beleza ao exercitar sua veia lírica e narrativa em poemas e textos de ficção. Como a busca do conhecimento de si mesmo ou da beleza são fins em si mesmos, creio que até o mais despretensioso dos blogues estaria justificado.
Diferente é a situação dos artigos acadêmicos que padecem da Sindrome do Segundo. Eles são prova de uma doença que faz o pensamento se afastar dos assuntos para concentrar-se na forma como esses assuntos foram analisados por outrem. O autor que sofre desse mal não sabe dizer que um poema é bom: só consegue dizer como ele foi lido pelos críticos. Também não sabe pensar nada sobre nenhuma questão fundamental, como o amor e a morte, pois está ocupado em dizer, com citações feitas no padrão ABNT, o que outros pensaram dela.
Pode até ser que haja uma utilidade intelectual em deixar de lado o conceito de amor para se analisar de que modo esse conceito foi tratado à luz de diferentes correntes teóricas. Afinal, o progresso do conhecimento se faz por acréscimos pequenos que se somam para fazer a diferença. Mas esse é, em última instância, um tipo de utilidade diferente, que jamais se equiparará, em relevância para a vida, à coragem de quem, mesmo arriscando-se a errar, ousa dar uma opinião própria sem se preocupar com as notas de rodapé que a justifiquem.
Uma das boas coisas da blogosfera é que ela parece até agora, salvo raras excessões, imune à Sindrome do Segundo. Nos seus textos, ao contrário de muitos trabalhos acadêmicos virtuais, há bem mais produção autoral do que análise crítica da produção de outros. E a análise que se encontra tem a grande vantagem de ser, em boa parte das vezes, um olhar direto sobre as obras, sem os vícios da erudição excessiva. A grande maioria dos blogueiros, felizmente, prefere errar com idéias próprias a acertar com fórmulas gastas. Um viva à originalidade!

domingo, 3 de maio de 2009

Crer para ver

Demorei 36 anos e 6 meses para descobrir que é com os olhos fechados que vejo melhor as imagens que julgo mais belas. Diante de tais imagens, meus olhos são apenas o mecanismo de registro instantâneo. A visão propriamente dita, exata e profunda, só começa quando eles se fecham.

sábado, 2 de maio de 2009

Bendita seja a língua solta da blogosfera

Abaixo os embalsamadores!
Na galeria de tolices ditas sobre a web, há que se reservar lugar destacado à idéia de que a blogosfera empobrece a língua ao incorporar novidades de vocabulário ou construção sintática. Quem sustenta esse ponto de vista parece sofrer da ingenuidade crônica que leva a acreditar que existe uma língua acabada e irretocável e não uma língua viva e permanentemente aberta a mudanças e inovações.
Quem escreve, na web ou fora dela, só tem duas formas de lidar com a língua: ou a trata como um corpo de informações a ser mantido longe de modificações ou como um conjunto de peças que podem ser combinadas e recombinadas de infinitos modos. Os primeiros são os embalsamadores, que tratam a língua como um cadáver. Os segundos são os inventores, que fazem dela uma vivência lúdica de experiências.
Não é preciso esforço para perceber que os embalsamadores respiram o ar embolorado de um passado ideal, enquanto os inventores aspiram o ar fresco do presente e antecipam os ventos do futuro. Estes dão frutos e neles se perpetuam; aqueles estão fadados ao cemitério do esquecimento. A invenção e o experimento moram na essência da língua. O escândalo linguístico de hoje é o lugar-comum de amanhã.

A moderníssima pedagogia dos alfarrábios

O prazer inigualável de achar o que não foi procurado
Praticamente desisti dos livros novos. Há neles dois problemas sérios. O primeiro, de ordem material, é que livros novos custam um preço que me parece sempre acima do razoável. Ganância das editoras? Gula dos distribuidores e vendedores? Matéria-prima e insumos caros? Falta de uma política para o setor? Não me considero capaz de dizer, com segurança, qual desses fatores é o principal responsável pelo preço elevado de um produto que deveria ser barateado para circular mais. Só sei, por depoimento de alguns autores sérios que conheço, que não é por esperteza dos escritores, os quais, a despeito de serem a origem do mercado livreiro, limitam-se, via de regra, a acatar as regras impostas pelo mercado.
O segundo motivo que me leva a desistir sempre que possível dos livros novos é de ordem pessoal. Acredito que a curiosidade esteja para a inteligência como a ginástica está para os músculos. Ambas podem ser exercitadas com proveito. Para mim, a melhor ocasião de exercitar a curiosidade, ampliando seus horizontes temáticos, é o momento da compra descompromissada, aquela em que de uma estante da livraria se passa a outra ao sabor da casualidade, com a possibilidade de se fazerem descobertas surpreendentes. Desnecessário dizer que esse diletantismo custa caro em livrarias que vendem livros novos. Nessas, um carrinho, ainda que cheio apenas pela metade, resulta numa pequena fortuna.
A salvação de quem não quer ficar assustado no caixa é apostar nos sebos, essa benemérita instituição que parece ter surgido junto com as livrarias. Sou frequentador assíduo dos sebos, aos quais faço questão de comparecer pessoalmente. Os sebos virtuais, como as livrarias virtuais, são úteis para quem já sabe o que quer. Mas o meu prazer é o de não saber o que quero e de ir descobrindo livros ao sabor das provocações que vêm de cada estante. Há um caráter lúdico em passar da prateleira de astronomia para a de culinária, em folhear um tratado de filosofia e, a seguir, um manual de jardinagem. É nesse pulo de uma coisa para outra completamente diferente que a minha curiosidade se excita.
Para isso, os sebos são ideais. Só eles nos permitem o prazer indizível de encontrar os livros que não foram procurados e que, ao serem achados, se revelam verdadeiros presentes para a inteligência. Aliás, as coisas que não foram procuradas — e as pessoas que não foram procuradas — costumam ser dádivas, muitas delas transformando-se em companheiros para toda a vida. Daí que os sebos sejam ideais para o exercício da arte de não procurar. Há uma vantagem em quem não procura, que pode ser justificada até mesmo filosoficamente. Quem não procura um livro ou alguém está em disponibilidade, com o espírito livre. E é na disposição de experimentar livremente que se dá o acréscimo de conhecimento e vivência.
Os sebos têm ainda a vantagem de fugir às exigências de mercado. Nas livrarias, até mesmo pela disposição de livros nas prateleiras, somos levados a vislumbrar preferencialmente lançamentos ou produtos que as editoras desejam fazer circular. Aliás, essas mesmas exigências e apelos mercadológicos costumam impedir o leitor desavisado de avaliar com calma o real valor da obra, o que só pode ser feito com tempo. Nada como alguns anos para mostrar a importância ou desimportância de um livro. E, se não fosse o bastante, ainda seria preciso lembrar que, para os amantes de livros, só os sebos oferecem o prazer de se encontrar aquele título pouco conhecido e já esquecido de um autor famoso por outras obras.
E só os sebos satisfazem plenamente o gosto dos bibliófilos pelo exotismo. Em que outro lugar se pode achar, na mesma pilha de livros, às vezes empoeirada, um tratado de adestramento de falcões da Idade Média, reeditado por uma pequena editora portuguesa com figuras e vinhetas deliciosas, ou um já esquecido livro de confissões em que uma grande escritora narra a viagem que fez a uma praia remota da América do Sul? Que outro estabelecimento pode oferecer versões de clássicos da literatura erótica do século XVIII, reeditados na época da Primeira Guerra com linguagem colorida? Livros como esses, que não procurei, têm sido os grandes achados da minha vida de leitor em busca de alfarrábios.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Humildade e treino não fazem mal à literatura


Do chuveiro à ópera: um salto perigoso
A blogosfera brasileira surgiu sob a inspiração dos diários virtuais em que pessoas dos mais diferentes perfis se dispunham a passar a vida a limpo, num movimento de valorização da subjetividade cotidiana que produziu páginas memoráveis pela inteligência e a sensibilidade. Um giro rápido feito nos últimos dias mostrou-me que está ocorrendo algo diverso agora: os diários virtuais propriamente ditos sumiram ou foram substituídos por páginas de poesias, contos e, mais raramente, crônicas e textos de opinião, tudo feito com um ar muito sério.
Repetinamente, muitos autores de diários virtuais viraram poetas e/ou contistas que postam na rede, a cada semana, uma torrente lírica e ficcional. Nada contra isso, que é uma inclinação normal e até positiva na trajetória do interesse literário em meio virtual. Mas estão fazendo falta à blogosfera brasileira mais cultores daquele clima de leveza e despretensão que os bons diários trazem consigo e que Italo Calvino (no seu "Seis Propostas para o Próximo Milênio", leitura fundamental para blogueiros) diz ser a marca da melhor literatura no século XXI.
Para os iniciantes que querem persistir na construção de uma vivência literária, essa troca nem sempre é favorável. Enquanto o diário permite uma liberdade ampla de temas e formas, importante como exercício (escrever bem, como qualquer outra ação, é o resultado de treino, treino e treino, acompanhado de reflexão), poemas e contos dignos do nome exigem muita técnica de seus cultores. Assim, por exemplo, começar pela poesia, o mais difícil dos gêneros, é algo como sair das canções entoadas no chuveiro direto para uma apresentação de ópera.
Além do mais, um bom diário virtual não tem regras, a não ser as que seu autor deseja. Já um bom poema ou conto seguem lógicas de estruturação próprias aos gêneros. Se o autor virtual quer exercer seu direito incontestável de postar o que bem entende, sem se preocupar com avaliações críticas, tudo bem. Mas, se ele deseja ser visto como escritor e construir frases como "Eu e Fernando Pessoa tematizamos a identidade" ou "Eu e Machado de Assis exploramos a ironia", talvez valha a pena pensar a sério em abrir um diário e treinar.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Os perigos das muito bonitas


Transforma-se o amador na coisa amada
Um velho conselho, dado por mais de um filósofo, diz que os homens dedicados à reflexão não devem se casar com mulheres muito bonitas, pois, se o fizerem, arriscam-se a cair na armadilha de querer contemplar a beleza quase todo o tempo, deixando de dar a atenção devida ao ato de refletir.
Tenho minhas dúvidas em relação a isso. Se o conselho fosse válido, o inverso também deveria sê-lo: os que se casam com mulheres feias deveriam ser grandes pensadores. Não parece ser esse o caso. Não estou convencido de que alguém se torne mais reflexivo por se casar com uma mulher em quem não veja beleza.
Parece-me mais razoável pensar que os maridos que consideram suas mulheres feias se tornem, com o passar do tempo, não reflexivos, mas enfastiados, pelo menos esteticamente, e que a única reflexão que a feiúra de fato lhes inspira é a de quão dolorosa pode ser a obrigação de suportá-la no dia a dia da convivência.
Minha reserva em relação a esse conselho, que parece ditado por pensadores, digamos, pouco inclinados à apreciação de mulheres, não me impede, porém, de reconhecer que em literatura, para quem escreve, ele tem algum sentido. Estou convencido de que, para mim, os livros mais belos podem ser, de fato, perigosos.
Aquelas obras das quais gosto muito, por admirar sua beleza, acabam se transformando, quando não me policio, num padrão que se internaliza em minha mente sem que eu mesmo me dê conta. Feliz com a comunhão de idéias e sentimentos encontrada numa obra, e extasiado pela beleza que ela contém, tendo a reproduzi-la ao escrever.
Se não chego a fazê-lo, é por um movimento de autocrítica que me custa muito. Afinal, quem, tendo diante de si a beleza, deseja deixar de contemplá-la e de tentar se conformar a ela, mesmo que isso lhe custe renunciar a outras possibilidades? Certo estava Camões, que não tinha um olho mas enxergou longe nos versos célebres do soneto:
Transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho, logo, mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

A vida para além do asfalto

Um dia para lembrar que a Terra existe
Este Dia da Terra, que o calendário fixou em 22 de abril, já significou para mim coisas muito diferentes. Na infância, dividindo os dias entre a minha casa no interior e a fazenda de meus avós maternos, simplesmente não conseguia entender como a nossa morada planetária, algo tão natural, poderia ser celebrado.
Fixei-me em definitivo na cidade e aprendi, na escola, que a Terra era algo que precisava ser celebrado porque havia pessoas que cuidavam mal de sua morada, que é também a nossa morada, criando um risco para todos. Talvez por minha origem rural, eu, sabendo o quanto devia à Terra, continuei a achar aquilo desnecessário.
Mudei-me depois para a grade floresta de asfalto e concreto da capital e ingressei na rotina de dormir, comer, estudar e trabalhar em locais situados muitos metros acima da terra, uma terra, aliás, que eu nem chegava a pisar, pois, da porta do prédio à porta da escola e do trabalho, o chão nu só aparecia em canteiros.
Nessa rotina, conheci pessoas mais jovens que não teriam desenvolvido, sem a ajuda de livros ou programas de TV, a noção de que o leite não sai de máquinas e sim de vacas, de que a água não nasce nos canos e sim em nascentes e que verduras não são produzidas em linhas de montagem, mas plantadas num chão situado além dos aparentemente intermináveis horizontes urbanos.
Foi então que eu enfim compreendi o que me parece ser o sentido profundo dessa comemoração que se faz em 22 de abril. Foi sobretudo para essa gente nascida e criada nas metrópoles, que hoje é a esmagadora maioria dos habitantes do Planeta, que foi preciso instituir no calendário um dia para lembrar que existe vida para além do asfalto e do concreto.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Nós, essa gente simples que não tem guru


Reflexões blogosféricas
Meu blogue, assim como os de vários amigos que aqui vêm, está fora da corrente majoritária na blogosfera brasileira. É a conclusão a que cheguei depois de ler uma entrevista com dicas "valiosas" de um "especialista" em fazer aumentar o número de leitores de páginas pessoais.
Entre as dicas está a de falar muito e explicitamente de sexo e tentar, o máximo possível, fazer do blogue uma ocasião para namoros virtuais. Outra dica "da hora": nos textos, não se deve sair nunca das afirmações óbvias, tão óbvias, acredito, que, nem precisariam ser escritas. Além disso, é importante escolher um dos autores mais difundidos entre blogueiros e extrair de vez em quando alguma citação "legal", mas sem "esse negócio" de ficar fazendo literatura elaborada. Por fim, é importantíssimo ser "agressivo" ao estabelecer as pretensões do blogue em termos de projeção da imagem de seu autor.
Depois de ler o "especialista", concluí que estou — e os autores de vários dos meus blogues prediletos se encontram na mesma situação — fadado a fazer parte de um grupo que vai se transformar logo em algo jurássico. Eu e meus autores prediletos não estamos na blogosfera para namorar ou encontrar um campo em que o ego possa se expandir. Eu, em especial, já me considero um caso perdido. Além de não ficar falando de sexo e colecionando citações "legais", escrevo como quem pensa alto, sem nenhuma pretensão, e vejo a mim mesmo como um reles plantador de abobrinhas virtuais.


***

A mesma entrevista com as "dicas" para blogueiros "descolados" me levou a pensar que já existe um novo uso para a crítica literária na blogosfera: analisar a criatividade dos perfis. As recomendações do "especialista" para que alguém se apresente aos leitores são tão fantásticas, no sentido que o termo tem na teoria literária, que um perfil composto a partir delas só pode ser convenientemente apreciado se lançarmos mão de recursos de crítica. Afinal, essas recomendações dão àqueles que as seguem a capacidade de fazer uma mistura "legal" entre realidade e ficção, com incontestável predomínio,acredito, desta última.
Devo muito ao "especialista". Antes de ser iluminado por suas dicas, eu pensava que um diário virtual como este deveria ser feito de impressões pessoais. Ingênuo, enchi essas páginas com minhas inquietações e limitações, em vez de preenchê-las com textos que passassem uma imagem "bombada" de mim. Agora entendo por que, ao comparar a mim mesmo e aos meus autores prediletos com aqueles que seguem as "dicas", eu tinha a estranha impressão de que eles viviam num mundo clean semelhante ao das novelas de TV, enquanto nós, simples blogueiros que não temos um guru, seguimos parecendo humanos, apenas humanos.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Manual de Montanhismo para Leitores Impressionistas


Sobre escaladas e resenhas literárias

Comecei a praticar montanhismo sob a influência da arte impressionista. E isso fez toda a diferença. Há quem colecione borboletas, pedras ou folhas trazidas das montanhas. Eu coleciono paisagens, não as imagens delas registradas em fotografias, mas a impressão de tê-las visto e de ter caminhado por elas, absorvendo seu cheiro e sua geografia.
É por isso que o bloco de notas, muito mais do que a câmera fotográfica, é o meu instrumento de colecionador. Volto das montanhas com várias páginas cheias de anotações. Às vezes, quando escrevo depois de chegar em casa, uso fotografias para ver de novo algum detalhe que pode ter escapado aos meus olhos durante os passeios. Mas as fotografias são apenas o ponto de partida para minhas notas, que não são feitas de descrições, mas de sensações, idéias e sentimentos. Os impressionistas me curaram da ilusão de pensar que na relação da mente com a natureza existem as coisas em si e me mostraram que o que existe são as coisas como as experimentamos, isto é, a nossa experiência delas.
E a experiência de um lugar, assim como a de um acontecimento ou de uma pessoa, pode variar conforme o momento cronológico e psicológico em que a vivenciamos, do mesmo modo como os impressionistas tiveram a genial idéia de dizer "não" ao realismo e se abrir às nuances da natureza, pintando-a conforme o ângulo e a luz do momento.
Não por acaso eles preferiam pintar ao ar livre. Uma tela produzida nessas condições nunca será igual à tela que um pintor realista produz em seu estúdio. A arte impressionista não está comprometida com a verdade em si, seja lá o que for isso, mas com a verdade que aparece aos olhos de quem a contempla e que por isso mesmo é verdade mais profunda.
Acredito que os meus manuscritos de montanhista, por estarem profundamente imbuídos dessa visão de mundo, sejam impublicáveis. Por causa do seu compromisso com a experiência, e não com a descrição, meus relatos soam caóticos e passam da observação de borboletas às considerações sobre a leveza, das folhas à filosofia, das árvores às almas.
Ainda assim, tenho a ousadia de considerar que esse procedimento impressionista de tomar notas é o mais adequado ao leitor que tem o hábito de fazer resenha das obras literárias que leu. Estou convencido de que há semelhança essencial entre a arte de relatar uma leitura e a de fazer o relato de qualquer evento, como um passeio às montanhas por exemplo, na medida em que essas experiências têm em comum o fato de se abrirem à subjetividade.
Pensar que há uma única leitura correta da obra literária é tão ilusório quanto acreditar que existe um único relato válido de um passeio às montanhas. O que existe são as nossas experiências de ler e de passear. Ora, experiências são, por definição, aquilo que não se pode pedir a ninguém que faça por nós. São algo pessoal e único.
Mas, e aqui está o milagre da linguagem, as experiências, embora únicas, são comunicáveis. Comparando relatos de passeios ou relatos de leitura, nós nos damos conta da infinita diversidade humana, que é a razão de ser da infinita riqueza interior do ser humano. Disso se infere que querer que os relatos de passeio e as resenhas sejam iguais é tentar matar a sua riqueza.
A conclusão desse meu impressionismo impõe-se por si mesma: a resenha acadêmica, feita com metodologia e técnica, e aspirando a uma padronização, está para o leitor como a máquina fotográfica está para aqueles montanhistas que, como eu, preferem anotar suas experiências em vez de simplesmente descrever a paisagem. A resenha acadêmica é ponto de partida, não de chegada. Dar a ela um estatuto superior é buscar a quadratura do círculo.
No entanto, essa busca do impossível esteve em voga em alguns momentos da história da teoria literária em que se procurou cercear, ao invés de estimular, a importância da resenha feita pelo leitor, sob o argumento totalmente descabido e sem fundamento de buscar o rigor acadêmico que, acreditava-se, somente os críticos e professores teriam.
O pressuposto desse rigorismo academicista é que, se a resenha crítica for bem feita, não haverá mais nada a acrescentar por parte do leitor. É o mesmo que pensar que um guia de viagem pode substituir a viagem ou que fotografias da montanha bastam para proporcionar a alguém que nunca foi até lá a sensação de ter estado em seu topo.
Não nego que as técnicas acadêmicas sejam úteis e que o leitor de obras literárias possa colocá-las em prática e se beneficiar delas em suas leituras e resenhas. Mas insisto em que elas não passam de algo que existe em função dessa experiência mais importante e insubstituível que é a experiência do texto vivenciada pelo leitor.
Todo leitor deveria resenhar os livros que leu do modo como faria o relato dos passeios que fizesse à montanha. Nos dois casos, a busca de impressões não é incompatível com o rigor técnico. Conhecer objetivamente as técnicas de composição do texto literário, bem como a constituição geológica da montanha, ambos conhecimentos impessoais, não mata a subjetividade que há em experimentar a leitura ou o passeio.
Método impessoal e experiência pessoal de leitura podem andar juntos, o primeiro servindo ao segundo. Do mesmo modo, o prazer de fruir o texto pode coexistir com a sua crítica. Mas que ninguém se iluda: não é a crítica, e sim a experiência pessoal, que possibilita o prazer. Também não é a crítica, mas a experiência da obra, que faz com que aprendamos algo com a literatura que sirva a nós próprios.
A literatura só nos ensina alguma coisa quando a lemos não para falar dela como críticos, mas para conhecer um pouco mais de nós mesmos enquanto experimentamos as impressões que ela nos desperta ou, às vezes, as que despertou em outros leitores que escreveram a respeito de suas leituras. Só essa experiência justifica a literatura como fenômeno estético e fonte de sabedoria.
Se quisermos viver o montanhismo, teremos que deixar de lado os guias de viagem e nos predispor a viajar. Se quisermos vivenciar a experiência estética proporcionada pela obra literária, precisaremos ir além dos roteiros da crítica. Quando isso puder ser feito, estaremos prontos para escalar montanhas feitas de palavras e aptos a voltar de seu topo com algo a acrescentar à nossa coleção de vivências.
***
A web, felizmente, está cheia de bons resenhadores, capazes de transformar leituras — entendidas em sentido amplo, o que inclui a leitura da música e do cinema, entre outras artes —em experiências pessoais narradas com sensibilidade e técnica. A lista dos bons resenhadores ativos na blogosfera seria exaustiva e por certo tomaria muito mais tempo e espaço do que seria razoável.
Enfrentando o risco de ser injusto por omissão, listo aqui alguns resenhadores brasileiros e portugueses que conheci e seus respectivos blogues. Ao lê-los, sinto-me convidado a subir a montanha que eles subiram e a fazer a minha própria escalada para tirar dela conclusões que só eu poderia tirar e que não nega as conclusões que outros tiraram. O link para esses resenhadores está aí ao lado, na minha lista de blogues.

* Alexandre Kovacs, do Mundo de K,

* Carla Maia de Almeida, do Jardim Assombrado,

* Rita Pimenta, do Letra Pequena,

* Ricardo Lombardi, do Desculpe a Poeira,

* Sara Figueiredo Costa, do Cadeirão Voltaire,

* Petê Rissati, do Vermelho Carne,

* Paulo Roberto Pires, da Bravo!.

segunda-feira, 30 de março de 2009

À sombra da minha ignorância em flor


A modernidade do paisagismo que só eu não conhecia
Chegará o dia em que a legislação há de conter penalidades severas para as árvores urbanas que cometerem a indelicadeza de florir mais intensamente do que o esperado. E haverá, quem sabe, previsão legal de sérias represálias para aquelas que resolverem perder as folhas um pouco antes ou depois do momento usual. Foi a essa previsão que cheguei ao ler hoje, pela mídia, as opiniões de um entendido que discute com eloquência, entre outras coisas, a evolução do conceito de paisagismo urbano composto com árvores.
Essa instrutiva entrevista ensinou-me que, ao contrário do que eu pensava, há modismos em se tratando de árvores, os quais devem ser seguidos pelas cidades que querem mostrar a seus cidadãos e visitantes o quanto são modernas e bem urbanizadas. No ir e vir da moda, pode-se chegar ao momento em que um fícus de 60 anos, por exemplo, é considerado inadequado aos jardins em razão do seu grande porte, incompatível com a preferência momentânea por arbustos. A solução? Arrancá-lo, claro.
Também há períodos em que entram em voga as podas radicais, dessas que decepam galhos e os tornam parecidos com cruzes, fazendo com que ruas e avenidas assumam a aparência de um calvário ou de um grande cemitério de mortos na guerra. Pode ocorrer ainda que numa primavera qualquer a moda resgate a idéia de caiar de branco os troncos e cercá-los com ferro e concreto armado, o que resulta num visual de jaula e, ao mesmo tempo, na incapacidade de as raízes se expandirem.
Só agora, depois de ler essas declarações, é que me dei conta do quanto estou fora de moda. Filho, neto e bisneto de fazendeiros, eu chego ao cúmulo de pensar que árvores têm sua própria natureza e que não deveriam ser curvadas às constantes mudanças de humores e gostos dos homens. Mais: eu cometo o absurdo de pensar que árvores, antes de serem um elemento da paisagem, são parte do sistema da vida, um sistema que, além de ser a base da existência dos pássaros, fornece sombra e melhora o ar para os seres humanos.
Essa indevida admiração chegou a povoar minhas fantasias. Nos livros e desenhos animados da minha infância, eu sempre esperava ver árvores em bosques encantados, tanto quanto esperava por bruxas, cavaleiros e princesas. Houve mesmo uma época em que a sombra de um enorme limoeiro que havia no fundo do quintal de minha casa passou a ser o meu lugar predileto no mundo. Nas noites de vento, quando eu ouvia da cama as folhas se balançando, era como se um velho amigo estivesse conversando baixinho do lado de fora da minha janela.
Lendo agora o que diz um especialista, vejo que tenho sido um ingênuo. E descubro o quanto minhas idéias são invertidas. Para mim, se uma árvore antiga atrapalha o traçado do jardim ou do canteiro central da rua, o problema não está nela, mas no projeto que traçou a rua e o jardim. É tamanha a minha ignorância, que chego a ter dificuldade de confessar aqui e se o faço agora é por dever de honestidade: tenho acreditado que árvores são como almas: quanto mais livres puderem se expandir e ser elas mesmas, tanto melhores e mais belas ficarão.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Senhor, tende piedade dos utilitaristas



Do "apesar" ao "porquê": uma reflexão matinal sobre a literatura

Gosto da expressão "entregar a Deus". Ela é uma forma genuinamente popular de dizer que algo está fora do alcance e da possibilidade de intervenção humana. É preciso entregar a Deus aquilo que não conseguimos resolver. E confiar na Sua misericórdia.
Foi o que pensei ontem ao folhear o material didático de uma das grandes redes de ensino do país. Numa das apostilas, com capa convincente e conteúdo duvidoso, havia um tópico inteiro destinado a explicar ao estudante a utilidade prática da literatura.
É preciso entregar a Deus quem busca qualquer tipo de utilidade na literatura. E também merecem ser entregues à Sua infinita bondade aqueles que dizem apreciá-la apesar de sua inutilidade. A salvação estética dessas almas só ao Pai Eterno compete.
A literatura não é boa apesar de inútil. Ela é boa porque é inútil. Sua inutilidade significa que ela, como toda arte legítima, transcendeu o campo do necessário, do contingente, daquilo que devemos fazer no cotidiano, com ou sem vontade, para ganhar a vida.
A literatura, como arte, é jogo e brinquedo de palavras. É prazer. Precisa de tratamento, ou de oração, quem busca utilidade no prazer e mesmo quem perde tempo tentando teorizar sobre ele. Esse tempo, aliás, é sempre roubado ao exercício fundamental de viver.
No entanto, aí estão os fazedores de apostilas ginasiais gastando papel para doutrinar crianças e adolescentes quanto à utilidade prática da literatura. Melhor seria que optassem por dizer as coisas de modo direto e honesto, usando para isso as palavras certas.
É fácil explicar a utilidade da literatura. Ela é tão útil quanto uma sinfonia de Bethoven, uma canção de Chico Buarque, uma tela de Picasso ou uma estátua de Rodin. Tão útil quanto levar os filhos ao cinema ou beijar na boca e passear de mãos dadas no jardim.

terça-feira, 24 de março de 2009

A flor que não cresce na academia


Boas e más notícias a respeito do ofício de ensinar a ver beleza

Desisti há um bom tempo da ingrata tarefa de definir a poesia. Não sei se é música feita com idéias, como queria Ricardo Reis, se é pura liberdade ou a matemática da emoção, como a entenderam outros, ou ainda um fugidio estado de espírito que se tenta fixar em palavras. Isso não é importante. Melhor do que definir a poesia é experimentá-la.
Presume-se que a escola, em especial a universidade, existe para, entre outras coisas, ajudar os interessados a experimentar a poesia. Quando assumi o risco de me colocar diante de um grupo de pessoas dispostas a me ouvir falar e a ler o que rabisco no quadro negro, era esse papel que eu tinha em mente desempenhar.
Agora, anos depois, tenho dúvidas quanto a esse papel. Estou convencido de que se pode falar a respeito de autores e livros, mas não se pode ensinar a experiência da poesia. A má notícia é que, se alguém precisa da crítica acadêmica para experimentar a poesia, provavelmente não a experimentará. A crítica pode desmontar brinquedos feitos de palavras, mas não pode brincar com eles, muito menos ensinar a brincar.
A boa notícia é que, à revelia dos professores e da academia, tão ciosos de sua autoridade e de seu autoconcedido papel de condutores da sensibilidade alheia, a poesia vem florescendo, dentro e fora dos livros, cultivada por corações e mentes que muitas vezes não têm diplomas, mas têm sensibilidade. E, pelo que me consta, continua a demonstrar um lírico desdém pelos professores e críticos que preferem classificar palavras a sonhar com elas.

segunda-feira, 23 de março de 2009

A blogosférica miscelânea e seus antepassados


Cortázar, o avô argentino dos blogues literários

Um dos debates que vêm apaixonando a ainda engatinhante crítica especializada em blogues literários é a origem da miscelânea de gêneros que torna alguns deles tão interessantes. Os palpites críticos podem ser divididos em dois grupos: o dos que reivindicam para a blogosfera, de modo exclusivo, a criação desse gênero e os que vêm nele um desdobramento de um gênero existente antes do advento da internet.
Tenho a respeito uma opinião de meio termo. A mistura de artigo, ensaio, crônica, conto, diário, poesia e imagens que se encontra hoje em alguns dos melhores blogues é, no meu entender, filha legítima da web e não poderia ter florescido senão com os recursos multimídia que ela coloca à disposição dos autores virtuais. Foi o que eu disse, aliás, em minhas "Teses sobre a Blogosfera", publicadas aqui.
Mas nada surge do nada. Essa mistura faz parte de uma linhagem e tem, sem dúvida, seus antepassados na literatura impressa. Um deles está em "Último Round", do argentino Julio Cortázar (1914-1984). O livro, que apareceu em português no ano passado, em bem cuidada edição da Civilização Brasileira, com tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht, é uma autêntica miscelânea blogosférica feita antes da blogosfera.
Os dois volumes em que a obra foi lançada em português enfeixam textos dos mais diversos tipos, publicados por Cortázar originalmente em 1969, quando já morava na França. Fica evidente na obra a estética do fragmentário e do descontínuo, dois dos traços típicos da blogosfera literária. Também está lá a estética da colagem, que os autores de blogues tomaram emprestada da arte moderna e popularizaram no mundo virtual.
Embora respirando o clima do movimento cultural de Maio de 68, "Último Round" não está datado. Juntando cultura popular e erudita, outro traço da blogagem inteligente, o livro tem uma novidade essencial que justifica sua publicação no Brasil 40 anos após ter surgido na Europa. É possível que, ao lê-lo, os autores de blogues em busca da árvore genealógica à qual pertencem descubram em Cortázar seu irrequieto avô argentino.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

A realidade, essa pornográfica


A lição dos censores

Está ecoando no Brasil a polêmica iniciada na segunda-feira em Portugal, onde, segundo a imprensa, autoridades determinaram o recolhimento das cópias de um livro sobre pintura que estavam à venda numa feira de Braga. Os livros tinham na capa uma reprodução da tela "A origem do mundo", de Goustave Courbet, um dos pais do realismo francês. A pintura, famosa e muito reproduzida, mostra uma modelo deitada com as coxas e o púbis expostos. O recolhimento foi feito sob o argumento de que o quadro é pornográfico.
A notícia me inspirou algumas constatações. A primeira é que, talvez por deficiência intelectual, não consigo entender a moralidade que proíbe colocar a imagem de uma mulher nua na capa de um livro didático dirigido a todas as faixas etárias, mas permite que ela seja reproduzida nas páginas internas.
A segunda é que, também por uma possível deficiência de meu intelecto, não consigo alcançar a diferença entre a essência do nu pintado por Courbet e a do nu esculpido em estátuas espalhadas pelos museus, praças e vias públicas da Europa e de outros lugares do Ocidente e do Oriente. Começo a pensar que, se depender das autoridades de Braga, tais estátuas, algumas delas com várias centenas de anos, seriam de imediato recolhidas.
Finalmente, a terceira constatação é que eu não sabia que a imagem realista de uma mulher nua deitada na cama é pornográfica. Nesse caso, tenho um débito de gratidão para com os censores da feira de Braga. Não fossem eles, eu, bárbaro e inculto, jamais descobriria que a realidade do corpo humano, essa realidade que homens e mulheres contemplam uns nos outros ou diante do espelho, é essencialmente pornográfica.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Que máscara você está usando agora?

Sobre carnaval, literatura e o sagrado direito de ser redondo

A caminho do trabalho hoje pela manhã, parei para ver o lixo carnavalesco de sábado acumulado no centro da cidade. A noite de sexta-feira, como de costume, foi dedicada a um irreverente desfile de fantasias que reuniu milhares de foliões. Como resquício dela, lá estavam no chão centenas de máscaras de gatos, piratas, pierrôs, colombinas e outros personagens.
Enquanto o serviço de limpeza juntava os restos e lavava as ruas, ia dizendo a mim mesmo que o carnaval, embora não me agrade, tem o mérito inegável de me aproximar mais da literatura. É preciso chegar o tempo da folia para que eu me recorde, a cada ano, do quão profundamente a literatura é capaz de compreender a nossa existência.
Acho sintomático, por exemplo, que se usem máscaras e fantasias no carnaval. Vejo nisso o reconhecimento explícito de que esta nossa comédia humana é feita, afinal de contas, de personagens e enredos. Não podemos, é verdade, redigir todas as ações da nossa trama de vida, embora nos esforcemos ao máximo por controlá-la.
Mas não resta dúvida de que, a exemplo de personagens, desempenhamos papéis e usamos máscaras correspondentes a eles nos 365 dias do ano. No campo pessoal ou profissional, esses papéis costumam ser desempenhados como imposição, exigindo-se de cada ser-personagem um comportamento adequado ao seu estereótipo.
Pensando a respeito enquanto olhava as máscaras jogadas no chão, lembrei-me do inglês E.M. Forster, um romancista sofisticado (que inspirou o cinema em produções como o belíssimo "Retorno a Howard's End", de 1992) e um crítico literário refinado, que propôs a classificação de personagens em "planos" ou "redondos".
Planos são os personagens que apresentam ao logo de toda a trama uma mesma linha de características, sem profundidades psicológicas. Redondos, os que têm dentro de si complexidades que os tornam difíceis de entender, peculiaridades que fogem a estereótipos e, sobretudo, conflitos que podem colocá-los em rota de colisão com o mundo e consigo mesmos.
Desde que parei de acreditar na simplória idéia de que literatura e vida pertencem a mundos inconciliáveis, eu me dei conta de que entender o prazer e a dor de ser humano é, de certa forma, uma questão de análise literária. Deveríamos ter algo como uma crítica literária da vida, capaz de mostrar a profundidade, oculta ou explícita, de cada cena da existência. E a beleza dolorida ou prazerosa de cada episódio vivido.
A primeira tarefa dessa crítica seria mostrar que não há, é óbvio, ser humano "plano". Todos somos redondos, e quanto mais nos assumimos como redondos, mais humanos nos tornamos. (Aliás, que os muito bem resolvidos me desculpem, mas as pessoas em conflito são de longe as mais interessantes, assim como são os personagens inquietos e problemáticos os que atraem o interesse e fazem o movimento das tramas na literatura e na dramaturgia).
Também caberia a essa crítica da vida mostrar que, por força dos estereótipos, nem sempre vemos reconhecido nosso direito à complexidade, à profundidade e ao conflito. Espera-se do profissional sério que seja sempre profissional, todo o resto sendo considerado incompatível com o seu papel. Do adulto se espera que seja sempre adulto, reprovando-se nele qualquer vestígio da infância.
A lista não pára aqui. Da mulher se espera que seja sempre doce e acolhedora. Do homem, que seja sempre forte e corajoso. De todos — e esse talvez seja o mais forte estereótipo e o mais difícil de combater — se espera que, tendo atingido a idade da razão, firmem o compromisso de não tolerar o erro e a falha em si mesmos e nos outros.
É essa expectativa trazida pelos estereótipos que faz alguns médicos advogados, engenheiros e outros profissionais se sentirem seminus ao serem vistos por clientes ou subordinados em circunstâncias informais, fora do seu ambiente, do seu traje de ofício e, por conseguinte, da sua zona de conforto. Tendo introjetado o estereótipo, essas pessoas o cobram de si mesmas, impiedosamente. Nessas ocasiões, para usar a expressão consagrada pela anedota, "o rei está nu" diante de si mesmo.
Acredito que é da tensão entre a imposição de estereótipos e a necessidade fundamental de ser complexo, múltiplo e de ter conflitos que nasce o mal estar existencial. É esse mal estar — assumido pelas pessoas autênticas e varrido para debaixo do tapete pelas menos corajosas — que o carnaval tenta minimizar como válvula de escape. Máscaras e fantasias talvez sejam o grito de quem deseja lembrar ao mundo e a si mesmo o seu direito sagrado de ser um personagem redondo, com tudo o que isso tem de imperfeito e de sublime.
Com essas idéias na cabeça, achei um espetáculo digno de nota aqueles restos de máscaras e fantasias sendo recolhidos pelo serviço de limpeza enquanto eu circulava pelas ruas na manhã de sábado. Não gosto de carnaval. Mas gosto da idéia de que preciso, pelo menos uma vez por ano, trocar de máscara e jogar fora meus estereótipos.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

O todo e as partes


Sobre decotes, omeletes e alegria carnavalesca

Uma espécie de ensaio de bloco carnavalesco impediu que eu dormisse ontem o sono dos trabalhadores cansados. Coisa rara: após um dia de honesta labuta, minha insônia de estimação cedeu lugar a um leve sono, que, se fosse tratado com carinho, prometia se prolongar pela noite adentro. Mas o batuque cresceu e chegou a me dar a impressão de estar do outro lado da porta do meu quarto. Meia hora de samba-enredo e duas Neosaldinas depois, deixei de lado o travesseiro, acendi a luz e, com uma ligeira vontade de estar sobre uma montanha deserta do Nepal, fui me sentar na cozinha.
Enquanto eu tomava café e sentia desolado a reverberação das canções nos vidros da janela, meu pensamento foi buscar em algum ponto remoto da memória o que aprendi sobre a Gestalt, a teoria que renovou os estudos de psicologia e epistemologia no início do século 20. Os gestaltistas têm idéias simples e boas. A mais famosa delas é que o todo de uma personalidade ou de qualquer aspecto do mundo humano não é simplesmente a soma de suas partes. Ele é algo novo, diferente, regido por leis próprias que nem sempre se aplicam às partes. Por isso não se deve usar as partes para entender o todo e sim o todo para entender as partes.
Faz sentido. Uma omelete, por exemplo, não é apenas a soma de ovo, queijo e cebolinha, acrescida de tempero. Ela é um prato específico, com um gosto e uma consistência diferentes do gosto e da consistência de cada elemento isolado que a compõe. Da mesma forma, um bando de roupas cafonas, junto com músicas e decoração cafona num salão cafona não é só um bando de coisas cafonas: é um baile clássico de debutantes.
Raciocinando a respeito de omeletes e bailes de debutantes, tive uma iluminação. Descobri que a Gestalt é a única teoria capaz de explicar os meus complexos sentimentos em relação ao carnaval. Fiquei admirado comigo mesmo por não ter percebido isso antes. Afinal, é tudo muito óbvio: uma questão de avaliação das partes e do todo.
Se a essência do carnaval é — ou costumava ser — a soma de música brasileira com alegria e senhoras e senhoritas em trajes, digamos, econômicos, minha avaliação não é negativa. Embora não sambe, nada tenho contra o samba. A alegria, por sua vez, está rigorosamente dentro da minha filosofia de vida, que abomina o mau humor. Já os trajes femininos típicos do carnaval, além de não me incomodar, constituem objeto da minha curiosidade intelectual. Os decotes, por exemplo, aguçam-me a visão científica. Alguns são um convite ao mergulho teórico nas profundezas antropológicas femininas.
Mas o carnaval não é, obviamente, apenas o ajuntamento de samba, alegria e mulheres desfilando sua simpatia com vestuário minimalista. Ele é algo diferente da soma dessas agradáveis partes. E aqui entra o meu problema com a festa predileta dos brasileiros, que só consegui entender agora, com a ajuda da Gestalt. A questão está na relação do todo com as partes. Se o carnaval fosse uma omelete, eu diria que gosto individualmente do ovo, do queijo e da cebolinha (desta, aliás, eu gosto muito), todos muito saborosos. Mas o prato que resulta dos ingredientes carnavalescos é um preparado que simplesmente não me desce pela garganta.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Sobre garçons, varredores e escritores

A psicanálise do cisco e dos restos de bolo na mesa
Tenho inveja de garçons e varredores. Na adolescência, quando descobri que a alma do escrever mora nos olhos e ouvidos, e não nos dedos e artifícios de estilo, passei a achar que esses dois ofícios têm muito a ensinar. Por respeito a si mesmo e aos leitores, ninguém que se disponha a colocar idéias na página em branco deveria fazê-lo sem antes passar por uma espécie de estágio probatório com eles.
Garçons e varredores, talvez por força do trabalho que exercem, estão imunes ao vírus do excesso de referência e atenção a si mesmos. É desse vírus a culpa pela impiedosa epidemia que devasta parte considerável da literatura e que em nossa época tem tornado tetraplégicos muitos talentos literários promissores, incapacitando-os de perceber as coisas do mundo como uma grande provocação da curiosidade.
Esse quadro patológico não atinge garçons e varredores. Nos restaurantes, lanchonetes ou bares de qualquer nível, nos aeroportos e terminais rodoviários, eles circulam com a vitalidade de quem não está afogado nas próprias profundezas. Estão atentos aos outros, enquanto aqueles a quem servem em geral têm olhos e ouvidos apenas para verem e ouvirem a si mesmos, num espetáculo infindável de autocontemplação.
Com garços e varredores, é diferente. Eles olham pela janela da vida e ouvem o seu burburinho. Só garçons e varredores descobrem com facilidade a diferença entre a birra que as crianças dão quando querem fazer algo e não são autorizadas e a birra que dão para não fazer o que lhes pedem. Só eles distinguem à primeira vista de qual dos cinco tipos de choro de mulher se trata em cada caso.
Sei que outras profissões permitem observar pessoas, mas não como os garçons e varredores. Médicos e policiais também fazem observações por dever de ofício, mas têm autoridade sobre as pessoas. E a autoridade, quando brilha nos olhos, estrangula, estupra e esquarteja a curiosidade. Com autoridade é impossível olhar o desenho geométrico do cisco no chão e fazer a psicanálise dos restos de bolo na mesa.
Autoridades não percebem que as pessoas se dividem entre as que brincam com as tampinhas de refrigerante e as que não brincam. Não sabem que canudinhos e palitos torcidos ou quebrados são quase um tratado sobre a alma humana, cada tipo de torção ou quebra correspondendo a uma disposição de espírito. Têm dificuldade para descobrir que a areia dentro do cinzeiro forma a imagem de uma montanha.
Para garçons e varredores, tudo isso é visível. É claro. Ao voltarem para casa depois de um turno de trabalho, eles podem avaliar o quanto o mundo é variado, complexo e profundo. Sem solenidade, sem alarde, com a nobreza de quem se sente bem servindo, eles atingem a capacidade de viver e aprender, esse fruto abençoado reservado aos quem têm a coragem e a humildade de não se julgar o centro do universo.