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quinta-feira, 7 de maio de 2009

Pilulas Pensantes: quem tem medo dos novos autores?

Do provincianismo nosso de cada dia, livrai-nos Senhor
A maior parte de nós, apesar da ampla propaganda que se faz em torno das novidades literárias, dedica quase todo o tempo ao que já conhece. Na literatura e na cultura, tendemos apenas ao estabelecido. Mais de oitenta anos depois do apelo ao novo feito pelo Modernismo, ainda é à custa de esforço que abrimos os olhos ao desconhecido. Não admira que demoremos tanto a valorizar os novos talentos ou os antigos que remaram contra a maré.
Nosso atraso é crônico e vem de longe. Foi preciso que críticos e tradutores ligados ao Concretismo, nos anos 50 e 60 do século passado, nos mostrassem a riqueza de um Sousândrade, um Kilkerri, um Lewis Carroll, um Cummings, uma Emily Dickinson, um Arnaut Daniel, um Maiakóvsky e tantos outros que já haviam passado pela terra há décadas ou séculos sem que recebessem, entre nós, brasileiros, o devido valor.
O "nós" acima dirige-se aos professores, pesquisadores, críticos, editores e leitores esclarecidos dos quais é razoável esperar que saibam, pelo menos, distinguir o novo que sobressai contra o pano de fundo do comum. Mas quantos de nós percebem, por exemplo, a novidade entre poetas e contistas da blogosfera? Quanto tempo terá se passado até que tenhamos dado aos bons autores virtuais o reconhecimento devido?
Tinha razão Fernando Pessoa: navegar é preciso. Mas aqui, do outro lado do oceano, nós nos demoramos nos portos seguros do convencional. Falamos em içar velas e percorrer mares nunca dantes navegados em busca de continentes ainda não explorados. Muitas vezes, entretanto, não temos sequer a disposição de sair da beira das águas conhecidas de nossas piscinas e nos acostumamos a considerar como horizonte o muro que delimita nosso quintal.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Um viva ao contraditório!

A dialética do esclarecimento
Tenho em alta conta a polêmica de interesse público. Quando alguém discorda de minhas idéias e expõe argumentos que fundamentam sua discordância, fico sinceramente feliz. Afinal, a maior homenagem que se pode fazer a alguém que expõe os próprios pensamentos sobre um assunto é discuti-los de modo racional, tendo em vista o mútuo esclarecimento que é a razão de ser dos debates saudáveis.
Quem discorda de nós com propriedade e com argumentos sólidos frequentemente lê com mais atenção o que escrevemos do que aqueles que apenas concordam conosco, pois a discordância consequente é trabalhosa. Além do mais, a discordância nos dá duas possibilidades de valor inestimável: a de retificar nosso pensamento nos pontos em que ele está equivocado e a de torná-lo mais claro para nós mesmos e os outros nos pontos em que está correto.
As palavras acima servem de preâmbulo para que eu possa enaltecer o excelente nível dos comentários que recebi da professora Letícia Palmeira e da advogada Mariza Lourenço ao post que fiz sobre a originalidade da blogosfera, sob o título "Você escreve blogues? Então cuidado com a Síndrome do Segundo". Esse elogio, aliás, cabe a todos os meus comentaristas, embora alguns prefiram se manifestar por e-mail.
Um dos comentários que recebi ensejou, pela inteligência e perspicácia com que foi feito, uma tréplica minha que está publicada no próprio espaço dedicado aos comentaristas. Como o debate trata, entre outros pontos, da blogosfera, da pesquisa acadêmica e da relevância e qualidade de textos, bem como da erudição e de citações, aqueles que se interessam por tais assuntos talvez achem interessante passar os olhos pelos vários lados da questão.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Você escreve blogues? Então cuidado com a Síndrome do Segundo


Quando a erudição vira doença
Alguns autores de monografias e artigos científicos costumam exibir uma expressão superior ao ouvir a palavra "blogosfera". Fica claro nessa expressão um sentimento de superioridade, decorrente, talvez, de eles julgarem seus textos mais relevantes do que a produção média dos blogues. De minha parte, não temo pela relevância do conteúdo dos blogues, que são livres por essência e, na sua grande maioria, não reivindicam nenhum status que não seja o de veículo de auto-expressão de seus autores.
Não posso dizer o mesmo de algumas publicações virtuais acadêmicas. Fico preocupado quando leio títulos como "A recepção do conceito de denotação do primeiro Wittgenstein no ambiente acadêmico sul-americano: um estudo à luz de memoriais de congressos universitários". Títulos como esses, que estão para as universidades como a praga está para a lavoura, costumam padecer do que chamo de Síndrome do Segundo, mal que faz com que se analisem as coisas sempre "segundo o autor X ou segundo o autor Y".
Acho que foi a esse tipo de gente que Thoreau se referiu ao escrever no seu "Walden" que hoje há mais professores de filosofia do que filósofos. A diferença entre ambos é óbvia. O filósofo autêntico — e, por extensão, o escritor autêntico — pensa a respeito das coisas ainda que ninguém tenha pensado antes. O professor de filosofia — e, por extensão, os que adotam um tom professoral em seus escritos — precisa de uma citação para justificar até o fato de achar belo o pôr do sol. Os professorais não pensam: são imbecis com PHD.
Gosto de brincar com a idéia de um juízo final entre autores. Se Deus, nesse dia, entendesse por bem perguntar a cada escritor o que seus textos fizeram de positivo para tornar a vida melhor, os autores de blogues poderiam dizer, pelo menos, que cultivaram o saudável hábito de auto-análise em diários virtuais ou buscaram a beleza ao exercitar sua veia lírica e narrativa em poemas e textos de ficção. Como a busca do conhecimento de si mesmo ou da beleza são fins em si mesmos, creio que até o mais despretensioso dos blogues estaria justificado.
Diferente é a situação dos artigos acadêmicos que padecem da Sindrome do Segundo. Eles são prova de uma doença que faz o pensamento se afastar dos assuntos para concentrar-se na forma como esses assuntos foram analisados por outrem. O autor que sofre desse mal não sabe dizer que um poema é bom: só consegue dizer como ele foi lido pelos críticos. Também não sabe pensar nada sobre nenhuma questão fundamental, como o amor e a morte, pois está ocupado em dizer, com citações feitas no padrão ABNT, o que outros pensaram dela.
Pode até ser que haja uma utilidade intelectual em deixar de lado o conceito de amor para se analisar de que modo esse conceito foi tratado à luz de diferentes correntes teóricas. Afinal, o progresso do conhecimento se faz por acréscimos pequenos que se somam para fazer a diferença. Mas esse é, em última instância, um tipo de utilidade diferente, que jamais se equiparará, em relevância para a vida, à coragem de quem, mesmo arriscando-se a errar, ousa dar uma opinião própria sem se preocupar com as notas de rodapé que a justifiquem.
Uma das boas coisas da blogosfera é que ela parece até agora, salvo raras excessões, imune à Sindrome do Segundo. Nos seus textos, ao contrário de muitos trabalhos acadêmicos virtuais, há bem mais produção autoral do que análise crítica da produção de outros. E a análise que se encontra tem a grande vantagem de ser, em boa parte das vezes, um olhar direto sobre as obras, sem os vícios da erudição excessiva. A grande maioria dos blogueiros, felizmente, prefere errar com idéias próprias a acertar com fórmulas gastas. Um viva à originalidade!

sábado, 2 de maio de 2009

Bendita seja a língua solta da blogosfera

Abaixo os embalsamadores!
Na galeria de tolices ditas sobre a web, há que se reservar lugar destacado à idéia de que a blogosfera empobrece a língua ao incorporar novidades de vocabulário ou construção sintática. Quem sustenta esse ponto de vista parece sofrer da ingenuidade crônica que leva a acreditar que existe uma língua acabada e irretocável e não uma língua viva e permanentemente aberta a mudanças e inovações.
Quem escreve, na web ou fora dela, só tem duas formas de lidar com a língua: ou a trata como um corpo de informações a ser mantido longe de modificações ou como um conjunto de peças que podem ser combinadas e recombinadas de infinitos modos. Os primeiros são os embalsamadores, que tratam a língua como um cadáver. Os segundos são os inventores, que fazem dela uma vivência lúdica de experiências.
Não é preciso esforço para perceber que os embalsamadores respiram o ar embolorado de um passado ideal, enquanto os inventores aspiram o ar fresco do presente e antecipam os ventos do futuro. Estes dão frutos e neles se perpetuam; aqueles estão fadados ao cemitério do esquecimento. A invenção e o experimento moram na essência da língua. O escândalo linguístico de hoje é o lugar-comum de amanhã.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Humildade e treino não fazem mal à literatura


Do chuveiro à ópera: um salto perigoso
A blogosfera brasileira surgiu sob a inspiração dos diários virtuais em que pessoas dos mais diferentes perfis se dispunham a passar a vida a limpo, num movimento de valorização da subjetividade cotidiana que produziu páginas memoráveis pela inteligência e a sensibilidade. Um giro rápido feito nos últimos dias mostrou-me que está ocorrendo algo diverso agora: os diários virtuais propriamente ditos sumiram ou foram substituídos por páginas de poesias, contos e, mais raramente, crônicas e textos de opinião, tudo feito com um ar muito sério.
Repetinamente, muitos autores de diários virtuais viraram poetas e/ou contistas que postam na rede, a cada semana, uma torrente lírica e ficcional. Nada contra isso, que é uma inclinação normal e até positiva na trajetória do interesse literário em meio virtual. Mas estão fazendo falta à blogosfera brasileira mais cultores daquele clima de leveza e despretensão que os bons diários trazem consigo e que Italo Calvino (no seu "Seis Propostas para o Próximo Milênio", leitura fundamental para blogueiros) diz ser a marca da melhor literatura no século XXI.
Para os iniciantes que querem persistir na construção de uma vivência literária, essa troca nem sempre é favorável. Enquanto o diário permite uma liberdade ampla de temas e formas, importante como exercício (escrever bem, como qualquer outra ação, é o resultado de treino, treino e treino, acompanhado de reflexão), poemas e contos dignos do nome exigem muita técnica de seus cultores. Assim, por exemplo, começar pela poesia, o mais difícil dos gêneros, é algo como sair das canções entoadas no chuveiro direto para uma apresentação de ópera.
Além do mais, um bom diário virtual não tem regras, a não ser as que seu autor deseja. Já um bom poema ou conto seguem lógicas de estruturação próprias aos gêneros. Se o autor virtual quer exercer seu direito incontestável de postar o que bem entende, sem se preocupar com avaliações críticas, tudo bem. Mas, se ele deseja ser visto como escritor e construir frases como "Eu e Fernando Pessoa tematizamos a identidade" ou "Eu e Machado de Assis exploramos a ironia", talvez valha a pena pensar a sério em abrir um diário e treinar.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Dicionário Anárquico da Blogosfera: "P", de poesia


* Postagem [substantivo feminino]: 1 - originalmente, o ato de remeter pelo correio; o que é remetido; 2 - na blogosfera, a partir dos anos 2000, constitui a designação genérica para sonhos, esperanças, crenças, ilusões, confissões e desabafos transpostos para a tela do computador; também pode ser entendida como um grito virtual contra a solidão, capaz de ecoar simultaneamente em todos os continentes.

* Planeta [substantivo masculino]: 1 - até a massificação dos micro-computadores pessoais, designava a vasta totalidade das terras e mares pela qual estão dispersos os habitantes deste mundo; 2 - com o advento da web e da blogosfera, passou a ser o vilarejo virtual onde se reúnem autores e leitores das mais diversas localidades para, ao fim do dia, trocar impressões sobre o que se passa com cada um.

* Poesia [substantivo feminino]: 1 - antes do surgimento do mundo virtual, correspondia a um tipo de produção literária com características definidas; 2 - na blogosfera, pode ser entendido como o fenômeno que leva aqueles que o experimentam a pensar que computadores podem ser postos a serviço da alma; por extensão, designa um estado de espírito lírico que, embora induzido virtualmente, persiste no olhar de autores e leitores mesmo após o desligamento do monitor.

sábado, 25 de abril de 2009

Duas ou três coisas que penso sobre as mulheres


Diante da esfinge
O excelente blogue Duas por Todas, criação conjunta da paulista Mariza Lourenço e da mineira Layla Lauar, colocou no ar uma entrevista com duas ou três opiniões minhas sobre a literatura feminina, as mulheres e o ofício de fazer crônicas. Assumo inteira responsabilidade pelos disparates que a entrevista eventualmente venha a conter. E agradeço a extrema gentileza das duas autoras, recomendando-as enfaticamente a todos aqueles que querem algo sensível e inteligente para ler sobre o vasto, profundo e, muitas vezes, insondável, universo feminino, que permanece como misteriosa esfinge para boa parte de nós, descendentes de Adão.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Nós, essa gente simples que não tem guru


Reflexões blogosféricas
Meu blogue, assim como os de vários amigos que aqui vêm, está fora da corrente majoritária na blogosfera brasileira. É a conclusão a que cheguei depois de ler uma entrevista com dicas "valiosas" de um "especialista" em fazer aumentar o número de leitores de páginas pessoais.
Entre as dicas está a de falar muito e explicitamente de sexo e tentar, o máximo possível, fazer do blogue uma ocasião para namoros virtuais. Outra dica "da hora": nos textos, não se deve sair nunca das afirmações óbvias, tão óbvias, acredito, que, nem precisariam ser escritas. Além disso, é importante escolher um dos autores mais difundidos entre blogueiros e extrair de vez em quando alguma citação "legal", mas sem "esse negócio" de ficar fazendo literatura elaborada. Por fim, é importantíssimo ser "agressivo" ao estabelecer as pretensões do blogue em termos de projeção da imagem de seu autor.
Depois de ler o "especialista", concluí que estou — e os autores de vários dos meus blogues prediletos se encontram na mesma situação — fadado a fazer parte de um grupo que vai se transformar logo em algo jurássico. Eu e meus autores prediletos não estamos na blogosfera para namorar ou encontrar um campo em que o ego possa se expandir. Eu, em especial, já me considero um caso perdido. Além de não ficar falando de sexo e colecionando citações "legais", escrevo como quem pensa alto, sem nenhuma pretensão, e vejo a mim mesmo como um reles plantador de abobrinhas virtuais.


***

A mesma entrevista com as "dicas" para blogueiros "descolados" me levou a pensar que já existe um novo uso para a crítica literária na blogosfera: analisar a criatividade dos perfis. As recomendações do "especialista" para que alguém se apresente aos leitores são tão fantásticas, no sentido que o termo tem na teoria literária, que um perfil composto a partir delas só pode ser convenientemente apreciado se lançarmos mão de recursos de crítica. Afinal, essas recomendações dão àqueles que as seguem a capacidade de fazer uma mistura "legal" entre realidade e ficção, com incontestável predomínio,acredito, desta última.
Devo muito ao "especialista". Antes de ser iluminado por suas dicas, eu pensava que um diário virtual como este deveria ser feito de impressões pessoais. Ingênuo, enchi essas páginas com minhas inquietações e limitações, em vez de preenchê-las com textos que passassem uma imagem "bombada" de mim. Agora entendo por que, ao comparar a mim mesmo e aos meus autores prediletos com aqueles que seguem as "dicas", eu tinha a estranha impressão de que eles viviam num mundo clean semelhante ao das novelas de TV, enquanto nós, simples blogueiros que não temos um guru, seguimos parecendo humanos, apenas humanos.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Manual de Montanhismo para Leitores Impressionistas


Sobre escaladas e resenhas literárias

Comecei a praticar montanhismo sob a influência da arte impressionista. E isso fez toda a diferença. Há quem colecione borboletas, pedras ou folhas trazidas das montanhas. Eu coleciono paisagens, não as imagens delas registradas em fotografias, mas a impressão de tê-las visto e de ter caminhado por elas, absorvendo seu cheiro e sua geografia.
É por isso que o bloco de notas, muito mais do que a câmera fotográfica, é o meu instrumento de colecionador. Volto das montanhas com várias páginas cheias de anotações. Às vezes, quando escrevo depois de chegar em casa, uso fotografias para ver de novo algum detalhe que pode ter escapado aos meus olhos durante os passeios. Mas as fotografias são apenas o ponto de partida para minhas notas, que não são feitas de descrições, mas de sensações, idéias e sentimentos. Os impressionistas me curaram da ilusão de pensar que na relação da mente com a natureza existem as coisas em si e me mostraram que o que existe são as coisas como as experimentamos, isto é, a nossa experiência delas.
E a experiência de um lugar, assim como a de um acontecimento ou de uma pessoa, pode variar conforme o momento cronológico e psicológico em que a vivenciamos, do mesmo modo como os impressionistas tiveram a genial idéia de dizer "não" ao realismo e se abrir às nuances da natureza, pintando-a conforme o ângulo e a luz do momento.
Não por acaso eles preferiam pintar ao ar livre. Uma tela produzida nessas condições nunca será igual à tela que um pintor realista produz em seu estúdio. A arte impressionista não está comprometida com a verdade em si, seja lá o que for isso, mas com a verdade que aparece aos olhos de quem a contempla e que por isso mesmo é verdade mais profunda.
Acredito que os meus manuscritos de montanhista, por estarem profundamente imbuídos dessa visão de mundo, sejam impublicáveis. Por causa do seu compromisso com a experiência, e não com a descrição, meus relatos soam caóticos e passam da observação de borboletas às considerações sobre a leveza, das folhas à filosofia, das árvores às almas.
Ainda assim, tenho a ousadia de considerar que esse procedimento impressionista de tomar notas é o mais adequado ao leitor que tem o hábito de fazer resenha das obras literárias que leu. Estou convencido de que há semelhança essencial entre a arte de relatar uma leitura e a de fazer o relato de qualquer evento, como um passeio às montanhas por exemplo, na medida em que essas experiências têm em comum o fato de se abrirem à subjetividade.
Pensar que há uma única leitura correta da obra literária é tão ilusório quanto acreditar que existe um único relato válido de um passeio às montanhas. O que existe são as nossas experiências de ler e de passear. Ora, experiências são, por definição, aquilo que não se pode pedir a ninguém que faça por nós. São algo pessoal e único.
Mas, e aqui está o milagre da linguagem, as experiências, embora únicas, são comunicáveis. Comparando relatos de passeios ou relatos de leitura, nós nos damos conta da infinita diversidade humana, que é a razão de ser da infinita riqueza interior do ser humano. Disso se infere que querer que os relatos de passeio e as resenhas sejam iguais é tentar matar a sua riqueza.
A conclusão desse meu impressionismo impõe-se por si mesma: a resenha acadêmica, feita com metodologia e técnica, e aspirando a uma padronização, está para o leitor como a máquina fotográfica está para aqueles montanhistas que, como eu, preferem anotar suas experiências em vez de simplesmente descrever a paisagem. A resenha acadêmica é ponto de partida, não de chegada. Dar a ela um estatuto superior é buscar a quadratura do círculo.
No entanto, essa busca do impossível esteve em voga em alguns momentos da história da teoria literária em que se procurou cercear, ao invés de estimular, a importância da resenha feita pelo leitor, sob o argumento totalmente descabido e sem fundamento de buscar o rigor acadêmico que, acreditava-se, somente os críticos e professores teriam.
O pressuposto desse rigorismo academicista é que, se a resenha crítica for bem feita, não haverá mais nada a acrescentar por parte do leitor. É o mesmo que pensar que um guia de viagem pode substituir a viagem ou que fotografias da montanha bastam para proporcionar a alguém que nunca foi até lá a sensação de ter estado em seu topo.
Não nego que as técnicas acadêmicas sejam úteis e que o leitor de obras literárias possa colocá-las em prática e se beneficiar delas em suas leituras e resenhas. Mas insisto em que elas não passam de algo que existe em função dessa experiência mais importante e insubstituível que é a experiência do texto vivenciada pelo leitor.
Todo leitor deveria resenhar os livros que leu do modo como faria o relato dos passeios que fizesse à montanha. Nos dois casos, a busca de impressões não é incompatível com o rigor técnico. Conhecer objetivamente as técnicas de composição do texto literário, bem como a constituição geológica da montanha, ambos conhecimentos impessoais, não mata a subjetividade que há em experimentar a leitura ou o passeio.
Método impessoal e experiência pessoal de leitura podem andar juntos, o primeiro servindo ao segundo. Do mesmo modo, o prazer de fruir o texto pode coexistir com a sua crítica. Mas que ninguém se iluda: não é a crítica, e sim a experiência pessoal, que possibilita o prazer. Também não é a crítica, mas a experiência da obra, que faz com que aprendamos algo com a literatura que sirva a nós próprios.
A literatura só nos ensina alguma coisa quando a lemos não para falar dela como críticos, mas para conhecer um pouco mais de nós mesmos enquanto experimentamos as impressões que ela nos desperta ou, às vezes, as que despertou em outros leitores que escreveram a respeito de suas leituras. Só essa experiência justifica a literatura como fenômeno estético e fonte de sabedoria.
Se quisermos viver o montanhismo, teremos que deixar de lado os guias de viagem e nos predispor a viajar. Se quisermos vivenciar a experiência estética proporcionada pela obra literária, precisaremos ir além dos roteiros da crítica. Quando isso puder ser feito, estaremos prontos para escalar montanhas feitas de palavras e aptos a voltar de seu topo com algo a acrescentar à nossa coleção de vivências.
***
A web, felizmente, está cheia de bons resenhadores, capazes de transformar leituras — entendidas em sentido amplo, o que inclui a leitura da música e do cinema, entre outras artes —em experiências pessoais narradas com sensibilidade e técnica. A lista dos bons resenhadores ativos na blogosfera seria exaustiva e por certo tomaria muito mais tempo e espaço do que seria razoável.
Enfrentando o risco de ser injusto por omissão, listo aqui alguns resenhadores brasileiros e portugueses que conheci e seus respectivos blogues. Ao lê-los, sinto-me convidado a subir a montanha que eles subiram e a fazer a minha própria escalada para tirar dela conclusões que só eu poderia tirar e que não nega as conclusões que outros tiraram. O link para esses resenhadores está aí ao lado, na minha lista de blogues.

* Alexandre Kovacs, do Mundo de K,

* Carla Maia de Almeida, do Jardim Assombrado,

* Rita Pimenta, do Letra Pequena,

* Ricardo Lombardi, do Desculpe a Poeira,

* Sara Figueiredo Costa, do Cadeirão Voltaire,

* Petê Rissati, do Vermelho Carne,

* Paulo Roberto Pires, da Bravo!.

domingo, 5 de abril de 2009

The Sunday Sessions


Uma manhã com as big bands
A manhã foi dedicada ao jazz, em especial às Big Bands. Fui à minha coleção de bolachas de vinil e voltei de lá com alguns discos da série Jazz History, da Metro. Passei horas de puro swing na companhia de Woody Herman, Johnny Hodges, Count Baseie, Dizzy Gillespie e respectivas orquestras. Entre os hits que a vitrola disparou na manhã azul estavam "Moten Stomp", "Indiana" e "Blue Lou".
Já no fim da manhã, antes de ir trabalhar (a semana deste plantador de abobrinhas tem início no domingo), peguei outra bolacha da série, dedicada a Duke Ellington, e disparei uma sucessão de pequenas jóias, como "Jack The Bear", "In a Mellow Tone", "Summertime", "My Funny Valentine", "Cotton Tail", "Deep Purple" e a impagável "Creole Love Call", que, pelo tom debochado, já escolhi como a música do meu funeral.
Se Duke Ellington não existisse, deveria ser inventado. Poucas vezes foi dado a alguém produzir tanto e com tanta qualidade na história da arte. Fiquei tão entusiasmado com aquela sequência de clássicos do som trepidante dos anos 30 e 40, que quase criei coragem para tirar uma vassoura para dançar.


***

Imagens dos anos dourados
Num domingo inspirado, descobri por acaso um site de ilustrações de Jim Flora, outra de minhas fixações. Flora é o cartunista norte-americano mais famoso dos anos 50. Seu trabalho, marcado por uma mistura peculiaríssima de traço moderno com cultura pop, ficou conhecidíssimo em capas de discos (geralmente de jazz), cartazes e outras ilustrações.
As "brincadeiras" de Jim hoje são vistas pela crítica como biscoito fino em se tratando de arte. No site oficial dedicado à obra do ilustrador, há uma convidativa viagem a um mundo de cores e formas que faz qualquer um — até aqueles que, como eu, nasceram depois — se sentir em casa na presença de imagens que só os anos 50 poderiam ter produzido.
Descobri Flora num natal da infância, ao ganhar um boneco que veio dentro de uma caixa com a estampa de "Manhattan Blue" (1954), uma das criações do ilustrador americano (reproduzida acima). Fiquei tão absorto naquele desenho colorido e cheio de formas angulosas, que esqueci o boneco. Nos anos seguintes, não descansei até encontrar outras ilustrações que Flora fez para a capa de álbuns clássicos de jazz da RCA e da Columbia Records.

***

Uma noite de terror, com pipoca e Coca-Cola
A noite de domingo será dedicada ao cinema mudo. Eu e minha nostalgia vamos de mãos dadas à sala de TV para assistir, com o balde de pipoca à mão, a "Nosferatu" (1922), de F. W. Murnau, com Max Schreck, baseado no romance "Drácula", de Bram Stocker, e ao "Gabinete do Dr. Caligari" (1919), de Robert Wiene, com Werner Kraub.
Ambos os filmes são obras clássicas do Expressionismo Alemão. Tenho dificuldade de dizer de qual dois dois gosto mais. Em ambos há um magistral jogo de luz e sombra e uma exploração genial da presença dos autores, o que me leva a pensar que certas qualidade são exclusivas dos filmes mudos e não foram atingidas no cinema falado.
Enquanto faço os preparativos para a minha noite de terror, vou pensando com os meus botões que a Ditadura do Lançamento, ao ofuscar todas as produções cinematográficas com mais de 2 meses, acabou por sepultar incontáveis tesouros. É urgente desenterrá-los. Ninguém faz jus ao nome de amante do cinema antes de conhecer essas eloquentes belezas mudas.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Germinações


Mais de mim na web

O dinamismo da vida intelectual brasileira deve muito às revistas eletrônicas de literatura e artes. Uma delas, a Germina, editada pela mineira Silvana Guimarães e a paulista Mariza Lourenço, é uma das provas de que se pode fazer na web um trabalho de altíssimo nível, contribuindo para levar luzes e letras a todos os quadrantes de um país carente de conteúdo.
Elogios fáceis poderiam ser enfileirados para compor uma imagem da Germina e explicar por que ela se transformou em referência internacional. Melhor, entretanto, é substituir a enumeração de qualidades por um convite à visita, a fim de que o leitor e a leitora vejam por si mesmos o que ocorre quando se juntam a inteligência e a técnica a serviço da arte e da sensibilidade.


***

Num rasgo de amizade, partido de suas editoras, a Germina abriu-me suas páginas. Lá estou, na edição que entrou hoje no ar, com um pequeno conjunto de textos de crítica literária. E lá estarei nos próximos números, acatando a exortação das editoras, como titular de uma coluna fixa dedicada à crítica da produção literária feita na web.
Minha primeira colaboração nasceu de reflexões instigadas por amigos deste blogue. Sob o título "ABC da Literatura na Blogosfera: um guia sem academicismos para autores iniciantes", discuto questões como: "Os comentários ajudam ou atrapalham os autores de blogues?"; "Os bons livros ensinam a escrever?"; "Como se forma o estilo?".

segunda-feira, 23 de março de 2009

A blogosférica miscelânea e seus antepassados


Cortázar, o avô argentino dos blogues literários

Um dos debates que vêm apaixonando a ainda engatinhante crítica especializada em blogues literários é a origem da miscelânea de gêneros que torna alguns deles tão interessantes. Os palpites críticos podem ser divididos em dois grupos: o dos que reivindicam para a blogosfera, de modo exclusivo, a criação desse gênero e os que vêm nele um desdobramento de um gênero existente antes do advento da internet.
Tenho a respeito uma opinião de meio termo. A mistura de artigo, ensaio, crônica, conto, diário, poesia e imagens que se encontra hoje em alguns dos melhores blogues é, no meu entender, filha legítima da web e não poderia ter florescido senão com os recursos multimídia que ela coloca à disposição dos autores virtuais. Foi o que eu disse, aliás, em minhas "Teses sobre a Blogosfera", publicadas aqui.
Mas nada surge do nada. Essa mistura faz parte de uma linhagem e tem, sem dúvida, seus antepassados na literatura impressa. Um deles está em "Último Round", do argentino Julio Cortázar (1914-1984). O livro, que apareceu em português no ano passado, em bem cuidada edição da Civilização Brasileira, com tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht, é uma autêntica miscelânea blogosférica feita antes da blogosfera.
Os dois volumes em que a obra foi lançada em português enfeixam textos dos mais diversos tipos, publicados por Cortázar originalmente em 1969, quando já morava na França. Fica evidente na obra a estética do fragmentário e do descontínuo, dois dos traços típicos da blogosfera literária. Também está lá a estética da colagem, que os autores de blogues tomaram emprestada da arte moderna e popularizaram no mundo virtual.
Embora respirando o clima do movimento cultural de Maio de 68, "Último Round" não está datado. Juntando cultura popular e erudita, outro traço da blogagem inteligente, o livro tem uma novidade essencial que justifica sua publicação no Brasil 40 anos após ter surgido na Europa. É possível que, ao lê-lo, os autores de blogues em busca da árvore genealógica à qual pertencem descubram em Cortázar seu irrequieto avô argentino.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

O homem que engoliu um sonho

Contribuição para um futuro Tratado Geral dos Males da Alma
Chega pela internet a notícia de que em Francisco Beltrão, no interior do Paraná, uma jovem médica do serviço de urgência foi acordada às quatro da madrugada no início da semana para atender a um paciente que relatava ter engolido um sonho. Para espanto da plantonista, ele exibia sintomas de mal estar que mostravam efetivamente o quanto estava incomodado com o sonho engolido.
É notícia que merece reflexão. Penso que, quando os catedráticos se lembrarem de redigir um Tratado Geral dos Males da Alma, será preciso fazer constar dele o caso desse homem. Acredito que seja o primeiro relato médico que se faz de um mal que, embora não figure no catálogo de doenças, está merecendo estudo e pesquisa.
Espero que a médica que atendeu o engolidor de sonhos de Francisco Beltrão desperte para a singularidade do caso e se debruce sobre ele com curiosidade ciéntífica. Pode surgir daí, quem sabe, uma nova frente de estudo na medicina. Tenho motivos para crer que a pesquisa será de grande utilidade, pois engolir sonhos é patologia que atinge a muitos.
Para provar isso, estou disposto a colaborar com a pesquisa fornecendo um relato semelhante. Trata-se de um sujeito de uma pequena cidade do interior que engoliu o sonho de continuar vivendo como se estivesse nos campos da região rural em que foi criado. Sabe-se que ficou meio imprestável para as coisas sérias e, para espanto de muitos, regrediu a um estado de criança, adquirindo o hábito de vagar sozinho por morros, rios e campos.
Relatos fidedignos dão conta de que esse cidadão, sem conseguir tirar de dentro de si o seu sonho, vai vivendo-o à luz do dia. Chega ao cúmulo de interromper seu trabalho (é um homem na casa dos 30 e tantos anos, com afazeres e responsabilidades) para olhar tatus-bolinhas, borboletas e pássaros. E há quem o tem visto, por mais de uma vez, arregalando os olhos ao ver estrelas cadentes na noite azul de Minas Gerais.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Da prisão dos dicionários à liberdade das falas


Sobre saudades, caravanas e balões soltos na noite
Os amigos costumam tirar-me de apuros. Um deles é a jornalista Rita Pimenta, de Portugal. Em comentário recente, ela disse ter gostado de ver escrita aqui a palavra “safra”, que por lá tem sido substituída por “colheita”. A substituição lhe despertou saudades, por se tratar, segundo sua avaliação, de uma bela palavra.
Respirei aliviado. Eu já estava a ponto de procurar ajuda psicanalítica para entender a nostalgia que tenho de certas palavras em desuso, cuja falta me deixa um vazio na alma. Sabendo agora que não sou o único a tê-la, sinto como se me tivessem tirado 10 dicionários dos ombros. Esquisitice compartilhada está a meio caminho de não ser esquisitice. Alivia um pouco.
Mas o alívio não elimina os incômodos. Tenho lamentado, por exemplo, que sejam pouco empregadas hoje palavras como “quebra-luz” e “alcova”. Convenhamos: dizer à companheira ou ao companheiro que venha se deitar na alcova e desligue o quebra-luz é muito mais afrodisíaco do que lhe pedir que apague a luz do abajur e venha para o quarto.
“Outrossim” é, sem trocadilho, outro vocábulo cuja raridade lamento. Alguém que diz “outrossim” em vez de “também” muito provavelmente vai dizer “candeia” em vez de “vela” ou “campina” em vez de “campo”. Sou capaz de apostar que gente com essas escolhas lexicais é dada à poesia e a outras abençoadas coisas do gênero.
Para aqueles que, como eu, são adeptos do montanhismo e dos passeios no campo, certas palavras são um poderoso estímulo. Partir do “sopé” de uma “colina” após “vagar” por suas “cercanias” em busca de “vertentes” ainda não vistas é muito mais instigante do que estar na base de um morro depois de andar por suas vizinhanças para conhecer o terreno.
O problema é que "sopé", "colina" e "vagar", bem como "cercanias" e "vertentes", são aves cada vez mais raras no céu do nosso léxico cotidiano. Lamento não lê-las e ouvi-las com mais frequência, assim como sinto a falta de "lirismo", "devaneio" e "luar". (Em compensação, "lual" foi reabilitada pela juventude, o que é um bom indício).
Mas nem só de substantivos é feita a minha nostalgia. Também sinto falta de verbos como “far-se-á”. Não sei quanto ao uso em Portugal, mas no Brasil a elegante colocação do pronome no meio do verbo — cujo nome gramatical, “mesóclise”, é ele próprio uma raridade — virou extravagância lingüística, não raro vista como erro.
Nos últimos anos, tenho sentido, alarmado, a falta de “decoro”. Já me havia acostumado à idéia de que essa circunspecta palavra quase só aparece ao se falar de política. Mas foi principalmente do noticiário político que ela fugiu a galope. A julgar pelo que leio, não voltará tão cedo a dar o ar da graça na República. Sinto-me impotente para mudar isso, pois um falante sozinho não faz verão.
Neste caso, porém, não acredito que devamos nos curvar ao desuso como se ele fosse um fato natural. Espero que surja um coro de muitas vozes, espalhadas de norte a sul do país, a pedir que “decoro” volte rápido às línguas falada e escrita e se torne abundante no noticiário. O mesmo vale para “apreço”, “amparo” e “afeto”, melodiosas palavras que estão inaceitavelmente pouco prestigiadas nas falas e escritas da atualidade.
O fato preocupante é que essas palavras estão sumindo aos poucos, sem que haja sinônimos colocados em seus lugares. Simplesmente vão minguando no linguajar comum e, quando nos damos conta, o espaço que ocupavam nas frases foi preenchido por vocábulos como “desprezo”, “abandono” e “ódio”, que são, aliás, cada vez mais empregados.
De minha parte, prefiro continuar saudosista. Certas palavras, para mim, nunca terão sinônimos, por mais que os estudiosos do léxico queiram me convencer do contrário. Se param de ser usadas, fazem falta e precisam ser libertadas rapidamente de sua prisão léxica, antes que nos esqueçamos de seu significado mais profundo, que só o uso é capaz de estabelecer. Que seria de nós se palavras como "paixão" e "perdão" ficassem encarceradas no dicionário até se transformarem em meros substantivos abstratos?


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Como já contei a Silvana Trajano, outra amiga que me tirou do apuro de pensar que só eu fazia isso, a criança que brinca dentro de mim tem o hábito de formar imagens correspondentes às palavras e de classificar a beleza delas de acordo com um critério que leva em conta tanto o seu significado, quanto a imagem formada em minha mente.
À força de imaginar, ocorreu-me uma pergunta difícil: qual seria, no Português, a palavra mais bonita de todas? Ainda estou pensando a respeito. Talvez seja "sonho", que, em razão dos "o" e do "s", me lembra um balão que vaga ao sabor do vento na vastidão pontilhada de estrelas do céu noturno. Ou, quem sabe, "solidariedade", que me faz pensar, por suas consoantes altas, numa caravana que cruza o deserto em fila indiana, sem que nenhum de seus membros se desgarre do grupo.
"Liberdade" também está na disputa, projetando em minha mente a idéa de uma torre que, embora bem assentada no chão, cresce indefinidamente para o alto. "Amor" não está no páreo, e a culpa é minha. O que essas quatro letras juntas me projetam na mente não é traduzível em imagens concretas. Minha capacidade imaginativa não chega a tanto.
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Mas basta de perorar sobre devaneios e saudades de palavras em desuso. Retiro-me agora, um tanto peripatético, em direção ao copiar. Vou deitar os olhos às publicações hebdomadárias. Deixo-vos um dilatado amplexo.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

A natureza humana, segundo as nuvens

Acabo de descobriu que há nos Estados Unidos uma Sociedade dos Apreciadores de Nuvens. Fiquei feliz e, ao mesmo tempo, ligeiramente decepcionado com a descoberta. A felicidade tem uma explicação: desde criança, sou um observador atento desses seres que vagam pelos céus com uma calma e uma placidez que parecem desdenhar dos nossos problemas humanos, sejam grandes ou pequenos, sérios ou banais. A ligeira decepção deve-se à circunstância de eu não ter participado de uma iniciativa como a criação dessa peculiar entidade.
Vou propor à Sociedade dos Apreciadores de Nuvens minha imediata filiação. Tenho um ótimo motivo: boa parte do que consegui aprender sobre a natureza humana, devo-a à existência das nuvens. O hábito de observá-las me ensinou que só há dois tipos de seres humanos adultos: os que olham nuvens para saber se vai chover ou se haverá tempo ensolarado ou nublado e os que as olham para ver se elas se parecem com um peixe, um avião ou um cavalo ou para admirar as formas abstratas nelas desenhadas pela natureza.
No meu entender, o fato de alguém pertencer a uma ou outra categoria diz muito sobre a sua personalidade. Há mais nas nuvens do que supõe a nossa vã filosofia.