domingo, 9 de janeiro de 2011

Sobre escritores iniciantes: onde termina a influência e começa a cópia?

Vejo um incômodo na forma como são recebidos alguns autores iniciantes que publicam na web. Ele não é novo em minhas reflexões. Em notas esparsas, inclusive nas que ficam registradas nestas páginas virtuais, bem como na revista Germina, que no ano passado publicou algumas de minhas opiniões, já me referi a ele. Se volto ao assunto, é por entender que as razões desse incômodo, além de não terem diminuído, pareceram-me ampliadas desde que o abordei pela última vez. Esse incômodo consiste na ausência quase completa de uma cultura crítica na web que seja capaz de estimular uma reflexão sobre aquilo que o ensaísta norte-americano Harold Bloom chamou de "angústia da influência". Como se sabe, a relação de um escritor iniciante com a tradição em que ele se insere pode dar-se de formas bastante diferentes, que vão da aceitação consciente da influência até a negação completa dela, configurando uma presunção de total originalidade que, apesar de radical, não é rara.
Desnecessário dizer que não existe literatura sem influência, na medida em que uma obra literária já nasce numa tradição e dentro dela se desenvolve. Esse nascimento e desenvolvimento, nos caso dos bons autores, formam uma espécie de dialética na qual se distinguem 1º) a afirmação da influência, 2º) a negação parcial dela e 3º) a síntese entre a herança e a originalidade. Isso é óbvio, mas está ausente da grande maioria dos espaços de discussão da produção literária na web brasileira. Disso resulta que há superabundância de criações e carência de um discurso de reflexão que, como na cultura de papel, permita dar aos autores iniciantes uma recepção à altura daquela que eles merecem. No entanto, essa cultura crítica de reflexão, com suas ferramentas de análise que permitam detectar, entre outros fatores, a dialética da influência, faz-se necessária num meio como a web, em que citação, paráfrase e plágio podem confundir-se na mesma assombrosa velocidade dos comandos de "copiar" e "colar".
É tão evidente a falta de uma cultura de reflexão crítica que permita criar bases mais exigentes para a recepção de textos literários na web, aspesar de quase todas as páginas terem espaço para "comentários", que distinções críticas elementares, porém válidas, como as estabelecidas por Ezra Pound, não são levadas em conta. Pound, autor de obra muito influente no século 20, é, enquanto crítico, o responsável pela proposta de divisão de escritores entre "inventores" (os que criam gêneros ou processos de escrita), "mestres" (os que combinam processos criados por inventores e os utilizam tão bem ou até melhor que seus criadores), "diluidores" (os que, embora tenham tentado, não chegaram a dominar a técnica de combinar criativamente processos de criação, limitando-se a repetir os mestres) e "bons escritores sem qualidades que se salientam" (os que repetem, sem qualquer viés criativo, o que foi feito pelos precedentes).
Sem exagerar a importância da classificação de Pound, que não é única nem exaustiva, pode-se perguntar, a respeito da esfera da literatura virtual brasileira, que tipo de discussão tem sido estimulada para criar uma cultura literária capaz de estimular nos leitores uma avaliação sobre quem são os inventores e mestres e quem são os diluidores e bons escritores sem méritos salientes. A resposta é que essa discussão ainda é rara. E isso é ruim para leitores e escritores. Aqueles, tendo curiosidade, perdem a oportunidade de aprofundar-se na leitura e, desse modo, vivenciar de modo mais pleno a experiência estética da literatura. Estes, possuindo mérito literário, deixam de tê-lo reconhecido pelo público virtual, correndo, entre outros, o risco de produzir obra original que não é vista como tal ou, pelo inverso, o risco de serem tomados por originais quando não passam de diluidores. É claro que a determinação do valor estético deve fazer-se solitariamente em cada leitura, que deve ser livre de amarras teóricas, mas ninguém perde com a difusão de informações que criem leitores mais críticos e informados. Pelo contrário.
Uma das consequências dessa situação, que já detectei em outros textos, consiste na incapacidade de se distinguir a cópia servil de processos de criação. Não é raro encontrar na web autores iniciantes que, ao explicar sua obra, não se dão conta de que estão a fazer cópia, pois ela é feita com modelos obtidos de segunda ou terceira mão. Cria-se então uma situação um tanto estranha. Caio Fernando Abreu, por exemplo, está morto enquanto pessoa física, mas continua produzindo através de clones virtuais que parecem não se dar conta de que repetem servilmente as soluções e processos de escrita desenvolvidos pelo autor gaúcho. O mesmo se pode dizer de Manoel de Barros, dono daquela que é muito provavelmente a poética mais imitada na atualidade, seja em dicção e tom, seja em ideário e recursos estilísticos. Manoel, para alegria de todos nós, está vivo no Mato Grosso do Sul, mas sua poesia já não sai apenas de suas mãos. Ela é feita também por uma profusão de jovens autores. Alguns destes, discorrendo sobre a própria obra na web, de um modo que seria cômico, não fosse a tragicidade do caso, julgam-se absolutamente originais. Os exemplos de matrizes clonadas poderiam multiplicar-se e incluir Clarice Lispector, Mário Quintana e tantos outros.
Parece estar acontecendo com parte da obra de alguns escritores um fenômeno de empobrecimento da leitura em parte semelhante ao que se deu, na música popular brasileira, com canções de Zé Ramalho e Raul Seixas. Como se sabe, as obras de ambos os cantores, paradigmas da dita "música cabeça" (vá saber-se o que é isso...), conquistaram a massa e hoje são ouvidas em contextos de diversão, inclusive em elevadores, nos quais não se percebe sequer a mais leve e discreta leitura dos efeitos estéticos que fizeram com que marcassem as épocas em que foram produzidas. Como não poderia deixar de ser, proliferam então os compositores egressos desse contexto de leitura diluída até quase o desaparecimento de qualquer resquício de análise crítica. Tais compositores fazem, às dúzias, canções à moda de Zé Ramalho e Raul Seixas. Até aí, nada demais, pois o pastiche é parte da cultura de massa. Entretanto, a generalizada falta de capacidade de perceber o pastiche fora da crítica acadêmica, esta sim, é indício de que algo não vai bem com o nível cultural dos leitores.
É fato que o fenômeno de extinção da crítica na recepção de obras literárias é muito seletivo. Na maioria das vezes, ele incide sobre procedimentos, estilos e recursos que possam ser assimilados mais facilmente por um número maior de leitores dotados de pouca informação crítica. Há uma razão a explicar por que a obra de Clarice Lispector (penso no monólogo interior de personagens que deixa jorrar uma vertente de sentimentos e contamina com ele a narrativa toda, reduzida a um mínimo de ação) é servilmente copiada por escritores e escritoras da web brasileira. É que essa obra oferece um padrão facilmente assimilável pelo iniciante nas letras, o que não lhe retira, em hipótese nenhuma, o valor literário. O mesmo se pode dizer de Caio Fernando Abreu, outra influência disseminada sem que seus disseminadores o percebam, e de tantos outros autores. Nesses autores, os recursos literários, processos de criação e temas recorrentes são o fruto de uma reflexão e de uma longa elaboração. Nos "continuadores", tais característica não passa de imitação. Distinguir isso deveria ser o beabá de quem se dispõe a ler literatura com seriedade na web.
É por essa mesma razão que não se vê, com a mesma frequência, a cópia servil de um Graciliano Ramos, capaz de concisão e elegância raramente alcançadas na prosa de Língua Portuguesa, ou de um Guimarães Rosa, cuja inventividade dispensa apresentações. Em idêntica situação está a influência vinda de outras literaturas. Na língua espanhola, Pablo Neruda, com sua mistura geralmente bem aceita de lirismo derramado e engajamento, é imitado à larga no Brasil, mas Borges, raciocinador difícil e cheio de referências culturais eruditas, tem poucos imitadores. Em se tratando da língua inglesa, temos aqui candidatos a Walt Withman, com seus versos livres, menos complexos de imitar, mas muito pouca gente se aventura a ser Emily Dickinson, autora de poemas que, pela estrutura e o rigoroso processo de composição, estão entre as originalidades mais marcantes da literatura do século XIX. Sem esquecer Fernando Pessoa, que, para nós, é estrangeiro sem o ser. Se o verso "o poeta é um fingidor" é lugar-comum nos bares, principalmente depois que a cerveja faz aflorar o poeta popular que vive dentro de cada cidadão, o mesmo não se pode dizer dos poemas escritos sob a alcunha de Alberto Caeiro, que propuseram nada mais nada menos do que uma nova religião e e uma nova filosofia para Portugal, baseada na releitura da herança greco-latina. É o menos complexo que atrai, pois com ele é mais fácil fazer a diluição e produzir o pastiche.
De qualquer modo, sendo fácil ou difícil a matriz, o que importa é que o servilismo de alguns clones literários merece ser visto como tal pelos leitores da web literária brasileira, o que supõe, como ficou dito no início, a difusão maior e mais aprofundada de um hábito de recepção crítica. Esse hábito se confunde com um verdadeiro esforço de educação estética e, também, de educação para a vida, na medida em que aprender a ler, em sentido amplo, é algo que transcende o aspecto literário, uma vez que se "lê" a conjuntura social e econômica, bem como a própria situação existencial. Em se tratando da produção literária presente na web, se essa cultura crítica ajuda a perder as ilusões de originalidade onde elas não são cabíveis, o que é uma tarefa demolidora, também se pode dizer que ela ajuda lançar as bases necessárias para se perceber o novo quando ele efetivamente surge, o que é, afinal, algo construtivo.

2 comentários:

Andreia Alfama disse...

Tudo o que diz aqui e' verdade, mas mais para alem das imitacoes, me preocupa o desleixe com que se trata a literatura. vejo pessoas a escrever " lindo" a coisas sem qualidade, e logo atras o passo denunciante " me visite em meu blog". as pessoas visitam para serem visitados e nao para ler... como pode haver critica verdadeira se a intensao nao e' ler e analisar? Vou editar o seu texto em Viver e Sentir. por vezes me apercebo de que as pessoas caminham na web como na vida... fazendo vizinhos para nao se sentirem sozinhos. Uma vez comentei em meu blog algo que encontrei num blog de poesia. a dona do blog ao editar um poema de um poeta ja falecido ha muito tempo, recebeu o comentario como se o poema fosse dela. ela teve a honestidade de chamar a atencao. o comentario dizia : "linda a sua forma de escrever... me visite."
ups, reparei que assinei com o nome da minha filha... desculpe. e, que ela me pediu para eu alistar no blog dela leituras que eu achasse interessantes e a adicionei ao seu blog. desculpe. tenha um bom ano!
fernanda rocha

Fernanda Maria Rocha Mesquita disse...

o seu texto teve o seguinte comentario em VIVER E SENTIR

Velton Clarindo disse...

‘É fato que o fenômeno de extinção da crítica na recepção de obras literárias é muito seletivo. Na maioria das vezes, ele incide sobre procedimentos, estilos e recursos que possam ser assimilados mais facilmente por um número maior de leitores dotados de pouca informação crítica. ’

A ‘síntese entre a herança e a originalidade’ é o que a maioria dos escritores novatos defendem. Contudo, o que vemos é o desabrochar de novos artistas que, substituídos quase sempre pelos clássicos, se entregam de corpo e alma nunca busca pela ‘literatura lucrativa’.

O valor artístico está sendo descartado. Hoje, as pessoas lêem um livro por que viram o filme, ou algo do tipo. Ou seja, os aspectos da literatura atual têm sido descartados, prevalecendo apenas uma maioria mais ‘popular’.

Isso provoca uma perda de identidade; Ninguém faz idéia do estilo com o qual convivemos hoje. Na literatura só existe clássicos1 e já que essas obras antigas continuam fazendo um sucesso absurdo, por que não copiar?

É triste disser isso, mas as pessoas não estão se abrindo para o novo – e eu, plenamente consciente de minha ignorância, compartilho esse mesmo apego aos clássicos.

Por isso, estou investindo em literatura européia contemporânea. Digo o mesmo sobre a literatura Pernambucana, estado onde moro. Não são só os escritores que copiam o estilo de outro. Os leitores também copiam o seu gosto literário...

um bom fim de semana
fernanda