segunda-feira, 28 de junho de 2010

Notas de Infância: I - O vasto mundo do outro lado da janela


Perto da claridade da manhã
A grama a lama tudo é minha irmã
A rama, o sapo, o salto
De uma rã.
Caetano Veloso
Uma rã que habitava a fazenda de meus avós maternos foi o grande pavor da minha infância. O quarto em que dormi até completar 5 anos (meus pais já estavam separados) dava para uma grande horta murada em que minha avó plantava verduras e legumes. Sob a janela passava — creio que passa ainda — uma tubulação de água que tinha à época um dos canos perfurado na junção. Era por esse oríficio, se não me engano, que entrava e saía o animal, amigo dos lugares úmidos. Seu coaxar deixava-me literalmente paralisado, apesar das tentativas de minha mãe em fazer-me ver que o bicho, além de ser inofensivo, habitava o outro lado da janela, um mundo do qual eu estava a salvo nas noites escuras. Depois de muito padecer, eu afinal me convenci de que os temores não tinham fundamento. Mas a memória do medo criou uma metáfora particular. Quando deparo com uma situação desafiadora, digo a mim mesmo que há um anfíbio à espreita. E tem sido assim a vida: um contínuo espantar de rãs.

2 comentários:

S.O.S disse...

KKKKKKKKKKK, eu não ia ler essa postagem. Mas quando vi o nome rã, não resisti. TENHO PAVOR, é esse nome com esses bishinhos e nem sofri nada como você, de ver ela toda noite, essas coisas. Mas adorei a comparação: Quando deparo com uma situação desafiadora, digo a mim mesmo que há um anfíbio à espreita. E tem sido assim a vida: um contínuo espantar de rãs. Blog ótimo, estamos seguindo.

Casa de Mariah disse...

tadinha da pobresinha.
você já pensou que pode ter perdido a grande oportunidade de encontrar, através de um beijo, uma princesa para sua vida?? já pensou, já?