segunda-feira, 15 de março de 2010

Um vazio no campo de centeio

É engraçado. A gente nunca devia contar nada a ninguém. Mal acaba de contar, a gente começa a sentir saudade de todo mundo. Essas frases, as últimas de O Apanhador no Campo de Centeio — na tradução de Jório Dauster, Álvaro Alencar e Antônio Rocha —, sempre ressoaram no fundo da minha alma. É delas que me lembro agora que J.D. Salinger deixou o recolhimento em que se manteve em vida, intransigentemente longe dos holofotes, para ganhar a visibilidade brilhante das pessoas eternizadas pela obra que deixaram. História de um adolescente, O Apanhador foi lido por mim na vida adulta. E isso fez toda a diferença. Aos 16 anos, idade do protagonista Holden Caufield, eu queria ler livros que me tornassem adulto mais rápido. Aos 32, quando li a obra-prima de Salinger, tive uma grande vontade de redescobrir em mim a espontaneidade dos meus anos adolescentes e a capacidade que eu tinha naquela época de olhar o mundo como se o visse sempre pela primeira vez. Essa vontade persiste e, espero, vai continuar comigo enquanto eu caminhar pelo pedaço do grande campo de centeio da vida em que me foi dado plantar e colher experiências. Devo essa vontade a Salinger, cuja extraordinária sensibilidade me fez sentir saudades do que vivi e, ao fazê-lo, possibilitou-me a dádiva reservada aos saudosos, que é a de descobrir o valor infinito de cada pequeno sentimento ou acontecimento vivido, o que é, no fim das contas, uma forma de aprender a viver. Viva Salinger!

3 comentários:

Mai disse...

Ele vive, Márcio, sua obra o imortalizou.
abraços e um retorno vigoroso.

Silvana Tavano disse...

Márcio, falamos sobre Salinger no mesmo dia! No post de segunda, divulguei um encontro do Clube do Livro do qual vou participar, no próximo dia 27. Sugeri que o tema fosse o escritor porque estava lendo os contos de "Nove Estórias" quando eles me convidaram. E agora estou relendo o Apanhador.
Tomara que ele tenha deixado textos inéditos. Era -- é-- um grande escritor.
beijos

Juliana Dal Sasso Vilela de Andrade disse...

Márcio!
Resolvi fechar o meu blog pra poucos leitores! Como sei que você sempre passa por lá, queria te avisar para, caso queira, me mandar um email (julianadalsasso@gmail.com) que te incluo na lista!
Esse teu post mexeu muito comigo, esse livro também teve o mesmo efeito em mim :)
Beijos,
Ju