domingo, 3 de janeiro de 2010

O efeito McCandless

O norte-americano Christian McCandless (1968-1992), que aparece na foto acima, ficou tragicamente famoso após o lançameto de um livro escrito por Jonh Krakauer e um filme dirigido por Sean Penn que contam sua aventura no Alaska, onde ele morreu jovem, possivelmente de fome e frio, após passar algum tempo sozinho num acampamento improvisado. O filme que mostra sua história, a começar pelo título — "Na natureza selvagem" (Into the Wild) —, sugere que McCandless foi vítima dos perigos naturais que nos espreitam nas zonas inóspitas do Planeta.
Na verdade, porém, depoimentos de guardas florestais e caminhantes que passaram pelo lugar em que McCandless foi encontrado morto dão conta de que ele, a despeito de sua mente brilhante (que lhe deu destaque entre os alunos da faculdade em que se formou), muito provavelmente foi vítima da própria ingenuidade. A poucos metros do local em que ele morreu havia um abrigo com comida destinado às pessoas que fazem camping pela região. Também estava próxima uma linha férrea com trens regulares. McCandless não pesquisou a respeito de nenhuma dessas coisas antes de viajar para o local do Alaska em que se fixou. Desprezou esse tipo de informação, assim como desprezou dinheiro, ferramentas e equipamento que lhe foram oferecidos gratuitamente por amigos que conheceu ao longo de sua jornada. Uma outra hipótese considerada atualmente é a de que McCandless não morreu de fome e sim por ingerir por engano frutas silvestres venenosas, o que também reforça a ideia de que ele estava, de fato, despreparado para a região em que decidiu habitar.
A história trágica de McCandless me veio à mente após a leitura de notícias sobre a tragédia de Angra dos Reis, onde já morreram quase 50 pessoas em decorrência de um deslizamento de terras. Tenho profudo respeito pela dor dos parentes das vítimas e lamento a má sorte delas. Mas acho correto dizer que deslizamentos são, obviamente, eventos que podem ocorrer e que ocorrem com frequencia em certas áreas de encostas como as que foram atingidas em Angra dos Reis. Em épocas de chuvas intensas, a probabilidade de algo assim ocorrer aumenta muito.
Meu gosto pelas caminhadas e o montanhismo me levou a andar sozinho, como McCandless, por vários lugares inóspitos da paisagem natural, como encostas de morros, terrenos pantanosos e locais infestados de cobras. Nesses lugares, assim como nas enconstas de Angra dos Reis, o problema não está na natureza, que não pensa e apenas existe. O problema está no homem, que, a despeito da faculdade de refletir, não reflete sobre as possíveis consequencias de alguns de seus atos de ocupação de espaço. Espero sinceramente que as famílias enlutadas pela tragédia de Angra dos Reis encontrem o conforto merecido. E espero também que não surja da tragédia mais uma dessas visões da natureza como madrasta, tão comuns nesses casos. A natureza, a meu ver, continua sendo mãe, nossa mãe inclusive. Nós é que às vezes, por imprudência, deixamos de acatar seus avisos e vamos habitar em lugares onde o risco é grande.

5 comentários:

Mai disse...

Parece que a natureza envia sinais de exaustão 'around the world'. Parece que os Homens vêem pouco, ouvem pouco, agem pouco e sofrem, após o inevitável.
Realmente uma tragédia, lamentável, dor incrível que, só de ver me inunda.
Um 2010 melhor para ti.

Fernanda disse...

Ola' Marcio. Feliz Ano novo. Que sua netinha esteja bem. E' verdade. A natureza existe para a desfrutarmos e respeitarmos. Cada coisa no seu lugar... coisa que o Homem parece esquecer

Fernanda disse...

Marcio nao querendo ocupar muito o seu tempo, gostaria que visitasse o meu novo blog, que estou a fazer, dedicado a criancas. sei que me podera dar uma opiniao sincera. Porque escrever para criancas, redobra a responsabilidade. O titulo... sonhos e magias... obrigado

Biba disse...

Oi Márcio, tens toda a razão. É bom vir aqui te ler.

Abraço,
Carpe Diem!

Bela disse...

ÓTIMO TEXTO!