quinta-feira, 23 de abril de 2009

Os perigos das muito bonitas


Transforma-se o amador na coisa amada
Um velho conselho, dado por mais de um filósofo, diz que os homens dedicados à reflexão não devem se casar com mulheres muito bonitas, pois, se o fizerem, arriscam-se a cair na armadilha de querer contemplar a beleza quase todo o tempo, deixando de dar a atenção devida ao ato de refletir.
Tenho minhas dúvidas em relação a isso. Se o conselho fosse válido, o inverso também deveria sê-lo: os que se casam com mulheres feias deveriam ser grandes pensadores. Não parece ser esse o caso. Não estou convencido de que alguém se torne mais reflexivo por se casar com uma mulher em quem não veja beleza.
Parece-me mais razoável pensar que os maridos que consideram suas mulheres feias se tornem, com o passar do tempo, não reflexivos, mas enfastiados, pelo menos esteticamente, e que a única reflexão que a feiúra de fato lhes inspira é a de quão dolorosa pode ser a obrigação de suportá-la no dia a dia da convivência.
Minha reserva em relação a esse conselho, que parece ditado por pensadores, digamos, pouco inclinados à apreciação de mulheres, não me impede, porém, de reconhecer que em literatura, para quem escreve, ele tem algum sentido. Estou convencido de que, para mim, os livros mais belos podem ser, de fato, perigosos.
Aquelas obras das quais gosto muito, por admirar sua beleza, acabam se transformando, quando não me policio, num padrão que se internaliza em minha mente sem que eu mesmo me dê conta. Feliz com a comunhão de idéias e sentimentos encontrada numa obra, e extasiado pela beleza que ela contém, tendo a reproduzi-la ao escrever.
Se não chego a fazê-lo, é por um movimento de autocrítica que me custa muito. Afinal, quem, tendo diante de si a beleza, deseja deixar de contemplá-la e de tentar se conformar a ela, mesmo que isso lhe custe renunciar a outras possibilidades? Certo estava Camões, que não tinha um olho mas enxergou longe nos versos célebres do soneto:
Transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho, logo, mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.

6 comentários:

Ricardo Duarte disse...

Márcio,
Excelente texto! Fez com que me lembrasse do prefácio de O Retrato de Dorian Gray, do Wilde. Sobre a beleza, ele diz:

•"Os que encontram significações feias em coisas belas, são corruptos sem ser encantadores. Isso é um defeito."
•"Os que encontram belas significações em coisas belas são cultos. Para estes há esperança."

Quanto ao amador tornar-se a coisa amada:

•"Na realidade, a arte reflete o espectador e não a vida."

Abraços

Letícia disse...

Márcio,

Finalmente estou aqui. Está difícil acompanhar seus textos porque sou lerda de nascença, mas, sempre que posso, venho aqui. Ler você me faz muito bem.

E é sempre um prazer encontrar uma ideia nova, porque nunca havia pensado nisso antes. Nas armadilhas de ter a beleza por perto. Creio que exista sim um problema. Muito acostumados à beleza, esteja ela onde este estiver, nos acomodamos a apreciá-la e ficamos estacionados. Acho que é essa a ideia de certos pensadores.

Mas você constrói outra forma de pensar e admito que a seguiria. Adoro o belo e não me sentiria menos ativa intelectualmente por ter de apreciar a beleza todos os dias.

E, para terminar, o verso de Camões. Eu adoro poesia, porém não tento fazer poesia. Nesse caso, aprecio a beleza e penso a respeito do que foi dito.

Um abraço.

mariza disse...

um texto interessante, Márcio, e mais abaixo explico o porquê. no entanto, devo dizer que discordo completamente do terceiro parágrafo, o qual reproduzo na íntera: "Parece-me mais razoável pensar que os maridos que consideram suas mulheres feias se tornem, com o passar do tempo, não reflexivos, mas enfastiados, pelo menos esteticamente, e que a única reflexão que a feiúra de fato lhes inspira é a de quão dolorosa pode ser a obrigação de suportá-la no dia a dia da convivência."
então, me pergunto se não existe coisa pior de suportar no dia a dia do que a falta de atributos físicos de uma mulher. o inverso, quem sabe, pudesse ser verdadeiro, não fosse a mulher mais desapegada de certos valores. se para o homem significa fastio e dor motivada pela obrigação de suportar uma mulher destituída de beleza, para a mulher, casada anos a fio com um homem feio, a obrigação de suportá-lo nunca estará relacionada a falta de atributos físicos de seu companheiro.

mas deixando de lado minhas considerações feministas, passo para minhas considerações literárias que, certamente, nunca causarão qualquer espécie de estranhamento entre autor e comentarista.
em relação às obras muito bonitas, devo concordar que, realmente, a profundidade de sua beleza acarreta uma espécie de entranhamento dentro daquele que, uma vez tenho lhe posto os olhos, não consegue se desvencilhar do que leu. acho que isso acontece com todo mundo. e por muitas vezes me pego na iminência de cometer um crime contra algum autor famoso, ao reproduzir, ainda que de forma inconsciente e inocente, seu estilo. a isso muita gente chama de admiração real. eu sou menos condescendente, sobretudo comigo. por isso, também cultivo o hábito de um rigoroso policiamento. cada um cada um. *;)

Petê Rissatti disse...

Como pode a beleza ser um distrativo para os filósofos e uma inspiração para os artistas. Se a arte de pensar necessita da feiura para se manifestar, permaneço ser impensante, ignorante e cercado de beleza. Essa, por sua vez, me inspira e me dá ferramentas, se não para escrever melhor, para viver de modo bem agradável.
Grande abraço, Márcio.

Lia Noronha disse...

Td adorável por aqui...voltarie mais vezes.
abraços carinhosos

Duas por Todas disse...

Márcio, bom dia, sua entrevista foi publicada no Duas por Todas.

Aproveitamos o ensejo para agradecer sua disposição e generosa colaboração.

Gratas,

Mariza e Layla