quinta-feira, 16 de abril de 2009

Nós, essa gente simples que não tem guru


Reflexões blogosféricas
Meu blogue, assim como os de vários amigos que aqui vêm, está fora da corrente majoritária na blogosfera brasileira. É a conclusão a que cheguei depois de ler uma entrevista com dicas "valiosas" de um "especialista" em fazer aumentar o número de leitores de páginas pessoais.
Entre as dicas está a de falar muito e explicitamente de sexo e tentar, o máximo possível, fazer do blogue uma ocasião para namoros virtuais. Outra dica "da hora": nos textos, não se deve sair nunca das afirmações óbvias, tão óbvias, acredito, que, nem precisariam ser escritas. Além disso, é importante escolher um dos autores mais difundidos entre blogueiros e extrair de vez em quando alguma citação "legal", mas sem "esse negócio" de ficar fazendo literatura elaborada. Por fim, é importantíssimo ser "agressivo" ao estabelecer as pretensões do blogue em termos de projeção da imagem de seu autor.
Depois de ler o "especialista", concluí que estou — e os autores de vários dos meus blogues prediletos se encontram na mesma situação — fadado a fazer parte de um grupo que vai se transformar logo em algo jurássico. Eu e meus autores prediletos não estamos na blogosfera para namorar ou encontrar um campo em que o ego possa se expandir. Eu, em especial, já me considero um caso perdido. Além de não ficar falando de sexo e colecionando citações "legais", escrevo como quem pensa alto, sem nenhuma pretensão, e vejo a mim mesmo como um reles plantador de abobrinhas virtuais.


***

A mesma entrevista com as "dicas" para blogueiros "descolados" me levou a pensar que já existe um novo uso para a crítica literária na blogosfera: analisar a criatividade dos perfis. As recomendações do "especialista" para que alguém se apresente aos leitores são tão fantásticas, no sentido que o termo tem na teoria literária, que um perfil composto a partir delas só pode ser convenientemente apreciado se lançarmos mão de recursos de crítica. Afinal, essas recomendações dão àqueles que as seguem a capacidade de fazer uma mistura "legal" entre realidade e ficção, com incontestável predomínio,acredito, desta última.
Devo muito ao "especialista". Antes de ser iluminado por suas dicas, eu pensava que um diário virtual como este deveria ser feito de impressões pessoais. Ingênuo, enchi essas páginas com minhas inquietações e limitações, em vez de preenchê-las com textos que passassem uma imagem "bombada" de mim. Agora entendo por que, ao comparar a mim mesmo e aos meus autores prediletos com aqueles que seguem as "dicas", eu tinha a estranha impressão de que eles viviam num mundo clean semelhante ao das novelas de TV, enquanto nós, simples blogueiros que não temos um guru, seguimos parecendo humanos, apenas humanos.

2 comentários:

Letícia disse...

Márcio,

Já vi muitos gurus. Clarice Lispector é o número 1 em se tratando de perfil de usuário. E a exposição desnecessária da vida intíma de certas pessoas parece chamar mais atenção que um texto que pode ser lido e fazer pensar. Eu li seu texto pela manhã e só agora venho comentar.

Eu leio as suas observações e tudo cai como uma luva. Não que eu coloque meu blog acima de qualquer outro, mas o que me incomoda e, nem sei se deveria incomodar, são esses espaços virtuais tipo "me beije agora" ou "esse poema da Cecília é para o meu amor". Imagino como você deve ter se sentido ao ler a tal entrevista. Acredito em liberdade de expressão, mas há um limite. Existem certas coisas que não suporto quando visito certos blogs. E o que faço? Não visito mais o blog que me causou mal estar. Eu fujo, finjo que não existe e pronto. É a liberdade me alcançando e, também, o blogueiro que se deixa levar por modismos e gurus, também tem a sua liberdade.

Tudo o que você citou e a entrevista apresentou são as verdades que engolimos. Não tenho nada contra erotismo. Já li vários textos que apresentam esse tema, mas existe uma forma diferenciada de se abordar tal assunto. Devo admitir que os tais blogs cor de rosa me incomodam. Me fazem arder de tristeza porque, nós mulheres e toda a ladainha feminista, existimos e já temos um espaço que merece mais que carinhas e bocas para que possamos fazer parte da sociedade. Vou deixar claro que não sou feminista. Mas quando entro em um blog e vejo uma mulher falando da vida dela com o namorado e expondo fotos de seu corpo e fazendo cara de "Estou aqui. Me olhem", começo a pensar que tenho sérios problemas intelectuais.

Mais uma vez, você tirou as palavras da minha boca.

mariza disse...

caros amigos,

concordo em termos. deixando de lado as valiosas dicas do tal especialista, porque são mais antigas que andar pra frente (basta dar uma navegada para confirmar a grande preferência dos usuários por sexo e citações), ouso acrescentar que aqueles que escrevem feito gente grande, como vocês, deixam de pensar que o privilégio da boa escrita não atinge a todos. e por isso mesmo a blogosfera é fatiada para atender a todos os gostos. bons ou ruins, não importa. porque se pensarmos no que é válido como forma de manifestação, tudo é válido. até mesmo gente fazendo declaração de amor explícita, enquanto estrelinhas multicoloridas enchem a tela do monitor e travam o mouse.
eu me espanto também, e me envergonho muitas vezes, até do que escrevo, vejam só. e uso, para o que me desagrada, a opção 'sair' do navegador.
embora não tenha lido a matéria, creio que o 'especialista', ao aconselhar tão temerariamente, não quis ou, à falta de recursos, não soube se ater às divisões existentes na blogosfera.
porque também uma coisa é certa, assim como existem aqueles blogues que nos causam espécie por seu conteúdo vulgar e de gosto duvidoso, existem também os blogues, que devidamente acobertados pelo manto da literatura, se agregam em tribos, excluindo tudo aquilo que não passe pelo seu crivo.
se, de um lado, a generalização é perigosa no aconselhamento indiscriminado e leviano. lado outro, o agrupamento e formação de guetos, também não me parece saudável.
e, Márcio, acho que você tem razão, todo aquele que não atende a modismos e cumpre apenas o que lhe dita o bom senso e a voz interior, naturalmente não será reconhecido como sucesso de público. afinal, agradar a gregos e troianos é missão impossível. melhor, então, ser sucesso entre aqueles (ainda que 'aqueles' se limitem à meia dúzia de gatos pingados) cuja capacidade de compreensão se aproxime daquilo que pretendemos passar com nossas impressões.

bom texto.