quinta-feira, 12 de março de 2009

Minha queda incontornável pela literatura


O dia em que olhei os gigantes de cima

Quando tiver netos em idade de ouvir histórias, direi a eles que houve um dia em que eu, reles amante da literatura, contemplei de cima, com olhar superior, o talento de gigantes como Safo, Virgílio, Shakespeare, Chaucer, Camões, Cervantes, Borges, Cortázar, Calvino, Drummond e Pessoa. Esse dia de glória ocorreu ontem. Precisamente às 21 horas e 10 minutos, por motivos que a ciência não explica e a astrologia não prevê, queimou-se a lâmpada da sala em que fica a mesa sobre a qual deixo livros em uso.
Para ganhar tempo, tive a luminosa idéia de deixar de lado a escada e subir na velha mesa para trocar a lâmpada. Assim que me ajeitei sobre o tampo, procurando um lugar para os pés entre as pilhas de volumes, ouvi um estalo no tripé de sustentação da mesa. Nos dois segundos seguintes, o tampo começou a se inclinar lentamente, com aquele ruído típico de madeira dilacerada, até ficar meio virado para baixo. E lá se foram para o chão os livros todos. Mas eu, equilibrando-me, permaneci triunfalmente de pé.
Se tivesse dado ouvidos ao meu anjo da guarda, teria me lembrado de que aquele não era o momento oportuno para que meus 71 quilos ficassem fazendo reflexões sobre uma mesa inclinada. Inconscientemente, porém, como se acatasse a sugestão do diabrete de estimação que me leva a fazer tolices, fiquei ali em cima por alguns segundos, saboreando o espetáculo de ver os gigantes da literatura espalhados pelo chão, alguns com suas capas viradas para baixo, outros com as folhas abertas.
Enquanto minha mente procurava uma metáfora naquela queda dos grandes perante um leitor que se mantém de pé, ouvi um segundo estalo. Dessa vez, não houve tempo. O tripé acabou de se partir e mandou para os ares o tampo e este que vos fala. Estatelei-me no chão e terminei com a cabeça sobre as capas duras do Dom Quixote e da minha agenda de professor. A idéia de filosofar sobre mesas inclinadas me custou um roxo no braço e outro no ombro, além de um pequeno corte no dedo. Terminei no chão, ao lado dos gigantes, sem lâmpada e sem luz.

***
Se fosse poeta, eu escreveria uma ode de louvor ao Dorflex e a outros anti-inflamatórios. Devo a eles a graça de ter conseguido dormir à noite com poucos gemidos. Pensando bem, acho que vou omitir o tombo da versão que contarei aos meus futuros netos. Isso fica só aqui, entre nós.

5 comentários:

Anônimo disse...

Márcio, só você mesmo para narrar tal fato com humor... Fiquei imaginando a cena! Acho que Dom Quixote até soltaria algumas boas risadas se ele não tivesse sido atingido.
Que os gigantes o ajudem a recuperar logo!

mariza disse...

estimo suas melhoras, Professor. *;)

Maria Clara dos Santos Batista disse...

Olá Márcio! Como você está?
Acho que nem preciso dizer que adorei o texto. Leio todos. Realmente muito bons.
Mais o que me move aqui hoje é para lhe pedir. Gostaria muito de levar um exemplar do seu livro para a minha faculdade. Meu professor adorou seu livro. Só que o que eu tenho aqui em casa é meu (risos...).
Gostaria de saber como faço para adquirir outro para o acervo da biblioteca saberes.
Um grande abraço.

Anônimo disse...

Depois desta mensagem, começa-se a "duvidar" do seu Retrato sem Retoques. Ali se escreve que não tem medo do escuro e que sonha com os pés no chão...

Desejos de boa e rápida recuperação

Rita Pimenta (Letra pequena online)

Letícia disse...

Muito bom, professor. É um escritor. Já está dito. Você fez um acontecimento rotineiro se tornar grande, um espetáculo e a forma como escreve é perfeita. Tudo no seu lugar e você como personagem e ainda essa sua capacidade de fazer o leitor ver a situação e viver também. Poucos blogs têm o conteúdo tão bom quanto o seu.