terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

O todo e as partes


Sobre decotes, omeletes e alegria carnavalesca

Uma espécie de ensaio de bloco carnavalesco impediu que eu dormisse ontem o sono dos trabalhadores cansados. Coisa rara: após um dia de honesta labuta, minha insônia de estimação cedeu lugar a um leve sono, que, se fosse tratado com carinho, prometia se prolongar pela noite adentro. Mas o batuque cresceu e chegou a me dar a impressão de estar do outro lado da porta do meu quarto. Meia hora de samba-enredo e duas Neosaldinas depois, deixei de lado o travesseiro, acendi a luz e, com uma ligeira vontade de estar sobre uma montanha deserta do Nepal, fui me sentar na cozinha.
Enquanto eu tomava café e sentia desolado a reverberação das canções nos vidros da janela, meu pensamento foi buscar em algum ponto remoto da memória o que aprendi sobre a Gestalt, a teoria que renovou os estudos de psicologia e epistemologia no início do século 20. Os gestaltistas têm idéias simples e boas. A mais famosa delas é que o todo de uma personalidade ou de qualquer aspecto do mundo humano não é simplesmente a soma de suas partes. Ele é algo novo, diferente, regido por leis próprias que nem sempre se aplicam às partes. Por isso não se deve usar as partes para entender o todo e sim o todo para entender as partes.
Faz sentido. Uma omelete, por exemplo, não é apenas a soma de ovo, queijo e cebolinha, acrescida de tempero. Ela é um prato específico, com um gosto e uma consistência diferentes do gosto e da consistência de cada elemento isolado que a compõe. Da mesma forma, um bando de roupas cafonas, junto com músicas e decoração cafona num salão cafona não é só um bando de coisas cafonas: é um baile clássico de debutantes.
Raciocinando a respeito de omeletes e bailes de debutantes, tive uma iluminação. Descobri que a Gestalt é a única teoria capaz de explicar os meus complexos sentimentos em relação ao carnaval. Fiquei admirado comigo mesmo por não ter percebido isso antes. Afinal, é tudo muito óbvio: uma questão de avaliação das partes e do todo.
Se a essência do carnaval é — ou costumava ser — a soma de música brasileira com alegria e senhoras e senhoritas em trajes, digamos, econômicos, minha avaliação não é negativa. Embora não sambe, nada tenho contra o samba. A alegria, por sua vez, está rigorosamente dentro da minha filosofia de vida, que abomina o mau humor. Já os trajes femininos típicos do carnaval, além de não me incomodar, constituem objeto da minha curiosidade intelectual. Os decotes, por exemplo, aguçam-me a visão científica. Alguns são um convite ao mergulho teórico nas profundezas antropológicas femininas.
Mas o carnaval não é, obviamente, apenas o ajuntamento de samba, alegria e mulheres desfilando sua simpatia com vestuário minimalista. Ele é algo diferente da soma dessas agradáveis partes. E aqui entra o meu problema com a festa predileta dos brasileiros, que só consegui entender agora, com a ajuda da Gestalt. A questão está na relação do todo com as partes. Se o carnaval fosse uma omelete, eu diria que gosto individualmente do ovo, do queijo e da cebolinha (desta, aliás, eu gosto muito), todos muito saborosos. Mas o prato que resulta dos ingredientes carnavalescos é um preparado que simplesmente não me desce pela garganta.

5 comentários:

Mai disse...

Uma omelete deliciosa de se ler. Porque tem próteses siliconadas, Gestalt, Tua velha e boa amante - 'Neusa', carnaval e olhares científicos e outros temperinhos básicos.

É de lascar mesmo.
Eu tenho também o meu carnaval particular. Não um bloco carnavalesco, porque moro numa serra que dá gosto.
Praticamente no Nepal está o chalet onde moro.
Mas na casa ao lado, mora uma vizinha que tem uma cadela que pensa.
Mais do que pensar, ela pensa que é gente e a vizinha fala, fluentemente, um dialeto canino. 'Princesa'. Isso mesmo a cadela chama-se pricesa.
Mas às quartas-feiras a vizinha viaja e, de quarta até sexta-feira a noite, princesa chora (não late não) como aquelas carpideiras ou como aquele choro da dona da cadelinha no 'auto da Compadecida'
princesa grita desesperada algo que é assim 'uiuiuiuiui.....'(uma onomatopéia bem interessante, não) porque finalmente descobre que não é gente.

Princesa definha, uivando, de quarta a sexta. Quer trocar?
O teu carnaval pelo meu?
Ainda te dou o 'Maguila' um labrador que é 'tarado' na princesa. Ele baba e princesa, uma pincher que usa roupinha da 'lilica ripilica' e quatro sapatinhos rosa, não dá bola pro cabeção do Maguila que quase surta também.

Eu troco, na boa, e ainda te mando uma caixa de Neosaldina, também.

Bjs.
E me responde.

mariza disse...

o feriado momesco vem chegando
e eu numa doida expectativa
para ver desfilar no céu
minha estrela favorita.
nesta madrugada todas elas resolveram dar o ar de suas graças, Márcio. num céu aveludado, lindo de fazer tremer a alma. agora a pouco, quando voltava para casa, comentei com minha mãe que, neste ano, nós duas iremos nos fartar de tanta calma. porque, aqui, barulho só de grilo e um ou outro coaxar de sapo.
se, por acaso, a folia existiu, ninguém sabe. ninguém viu.

(e viva a cebolinha!)

Letícia disse...

O carnaval é uma omelete que também não me entra. Para o meu azar, nasci em pleno carnaval e sempre comemoro meu aniversário nesses dias de pouca roupa e cheiro de cerveja pelas ruas. Um azar.

Mas vamos ao produto. Você sempre mistura coisas e admiro as comparações, os detalhes. É um contar de histórias sem esquecer que tudo está interligado. Você, dor de cabeça, Nepal, teorias, decotes e festa mundana. Tudo unido para formar o todo.

"Por isso não se deve usar as partes para entender o todo e sim o todo para entender as partes."

I agree.

Letícia disse...

E tentarei acompanhar seus posts. Ando lenta e o tempo encurtou.

Juliana Dal Sasso Vilela de Andrade disse...

hahahaha, adorei, Márcio!
E sou, obviamente, obrigada a concordar :)