domingo, 15 de fevereiro de 2009

Da prisão dos dicionários à liberdade das falas


Sobre saudades, caravanas e balões soltos na noite
Os amigos costumam tirar-me de apuros. Um deles é a jornalista Rita Pimenta, de Portugal. Em comentário recente, ela disse ter gostado de ver escrita aqui a palavra “safra”, que por lá tem sido substituída por “colheita”. A substituição lhe despertou saudades, por se tratar, segundo sua avaliação, de uma bela palavra.
Respirei aliviado. Eu já estava a ponto de procurar ajuda psicanalítica para entender a nostalgia que tenho de certas palavras em desuso, cuja falta me deixa um vazio na alma. Sabendo agora que não sou o único a tê-la, sinto como se me tivessem tirado 10 dicionários dos ombros. Esquisitice compartilhada está a meio caminho de não ser esquisitice. Alivia um pouco.
Mas o alívio não elimina os incômodos. Tenho lamentado, por exemplo, que sejam pouco empregadas hoje palavras como “quebra-luz” e “alcova”. Convenhamos: dizer à companheira ou ao companheiro que venha se deitar na alcova e desligue o quebra-luz é muito mais afrodisíaco do que lhe pedir que apague a luz do abajur e venha para o quarto.
“Outrossim” é, sem trocadilho, outro vocábulo cuja raridade lamento. Alguém que diz “outrossim” em vez de “também” muito provavelmente vai dizer “candeia” em vez de “vela” ou “campina” em vez de “campo”. Sou capaz de apostar que gente com essas escolhas lexicais é dada à poesia e a outras abençoadas coisas do gênero.
Para aqueles que, como eu, são adeptos do montanhismo e dos passeios no campo, certas palavras são um poderoso estímulo. Partir do “sopé” de uma “colina” após “vagar” por suas “cercanias” em busca de “vertentes” ainda não vistas é muito mais instigante do que estar na base de um morro depois de andar por suas vizinhanças para conhecer o terreno.
O problema é que "sopé", "colina" e "vagar", bem como "cercanias" e "vertentes", são aves cada vez mais raras no céu do nosso léxico cotidiano. Lamento não lê-las e ouvi-las com mais frequência, assim como sinto a falta de "lirismo", "devaneio" e "luar". (Em compensação, "lual" foi reabilitada pela juventude, o que é um bom indício).
Mas nem só de substantivos é feita a minha nostalgia. Também sinto falta de verbos como “far-se-á”. Não sei quanto ao uso em Portugal, mas no Brasil a elegante colocação do pronome no meio do verbo — cujo nome gramatical, “mesóclise”, é ele próprio uma raridade — virou extravagância lingüística, não raro vista como erro.
Nos últimos anos, tenho sentido, alarmado, a falta de “decoro”. Já me havia acostumado à idéia de que essa circunspecta palavra quase só aparece ao se falar de política. Mas foi principalmente do noticiário político que ela fugiu a galope. A julgar pelo que leio, não voltará tão cedo a dar o ar da graça na República. Sinto-me impotente para mudar isso, pois um falante sozinho não faz verão.
Neste caso, porém, não acredito que devamos nos curvar ao desuso como se ele fosse um fato natural. Espero que surja um coro de muitas vozes, espalhadas de norte a sul do país, a pedir que “decoro” volte rápido às línguas falada e escrita e se torne abundante no noticiário. O mesmo vale para “apreço”, “amparo” e “afeto”, melodiosas palavras que estão inaceitavelmente pouco prestigiadas nas falas e escritas da atualidade.
O fato preocupante é que essas palavras estão sumindo aos poucos, sem que haja sinônimos colocados em seus lugares. Simplesmente vão minguando no linguajar comum e, quando nos damos conta, o espaço que ocupavam nas frases foi preenchido por vocábulos como “desprezo”, “abandono” e “ódio”, que são, aliás, cada vez mais empregados.
De minha parte, prefiro continuar saudosista. Certas palavras, para mim, nunca terão sinônimos, por mais que os estudiosos do léxico queiram me convencer do contrário. Se param de ser usadas, fazem falta e precisam ser libertadas rapidamente de sua prisão léxica, antes que nos esqueçamos de seu significado mais profundo, que só o uso é capaz de estabelecer. Que seria de nós se palavras como "paixão" e "perdão" ficassem encarceradas no dicionário até se transformarem em meros substantivos abstratos?


***

Como já contei a Silvana Trajano, outra amiga que me tirou do apuro de pensar que só eu fazia isso, a criança que brinca dentro de mim tem o hábito de formar imagens correspondentes às palavras e de classificar a beleza delas de acordo com um critério que leva em conta tanto o seu significado, quanto a imagem formada em minha mente.
À força de imaginar, ocorreu-me uma pergunta difícil: qual seria, no Português, a palavra mais bonita de todas? Ainda estou pensando a respeito. Talvez seja "sonho", que, em razão dos "o" e do "s", me lembra um balão que vaga ao sabor do vento na vastidão pontilhada de estrelas do céu noturno. Ou, quem sabe, "solidariedade", que me faz pensar, por suas consoantes altas, numa caravana que cruza o deserto em fila indiana, sem que nenhum de seus membros se desgarre do grupo.
"Liberdade" também está na disputa, projetando em minha mente a idéa de uma torre que, embora bem assentada no chão, cresce indefinidamente para o alto. "Amor" não está no páreo, e a culpa é minha. O que essas quatro letras juntas me projetam na mente não é traduzível em imagens concretas. Minha capacidade imaginativa não chega a tanto.
***
Mas basta de perorar sobre devaneios e saudades de palavras em desuso. Retiro-me agora, um tanto peripatético, em direção ao copiar. Vou deitar os olhos às publicações hebdomadárias. Deixo-vos um dilatado amplexo.

3 comentários:

Mai disse...

O ululante ulula sempre e óbvio eu vou dizer o que penso.
Quando o escritor responde e-mail de uma 'sombra loquaz' feito eu, ele tá morto.
Bem eu já me pensei na ABL, sabe? Sonho é sonho. Afinal 'coelho's podem desejar e ser... (não sei do teu público leitor mas não sei mentir. Desculpa).

Voltemos a minha cadeira na ABL. Pois bem (essa é antiga)eu levaria um adolescente comigo para que eu pudesse dialogar com essa 'galera' para ver se eles conseguem ler mais, sabe.
Outro dia eu estava uma adolescente conversando com um grupo deles (terapia mesmo) e um dles me respondeu assim " Ah! essa parada é o maió ruim."
Meu cérebro 'panicou' e eu pedi que ele ligasse a tecla SAP.

Mas nem tanto e nem tão pouco.
Se ao deitar em total clima o cara me pedisse para desligar o 'quebra luz' e isso na alcova, eu juro, eu explodia de rir.
Seria bom de qualquer jeito mas...

Agora sério,
óbvio que existem palavras que são 'intocáveis' em seu usoe em seu 'tráfego' por gerações maseu penso que algumas obras que seriam absolutamente relevantesa uma determinada faixa etária, lhe é desinteressante face ao estilo e vestutez do léxico.

Beijos.
Outra vez, 'bacana'.

(viu como sou nostálgica... rss)

Éverton Vidal disse...

Seu texto faz despertar um desejo de apreciar as palavras. Faz nascer uma espécie de cuidado em escolhe-las. Tornar-se amigo delas.

Cresci lendo uma Bíblia que utiliza palavras hoje em desuso. É a Almeida corrigida. "Amemo-nos uns aos outros como eu vos amei a vós". Assim, ao ler seu texto tive uma certa nostalgia.

Parabéns pelo texto e pelo bom blog.

Um abraço.
Inté!

Luciana F. disse...

Oi, Márcio! Vc tem como me passar alguma bibligrafia de lógica e tb de teoria da argumentação? Algo que vc recomende bem ou que use em suas aulas.(O Perelman já li!) Abraço!