sábado, 7 de fevereiro de 2009

Cama, Companhia & Volúpia


É para dormir? Então prefiro contar carneirinhos
Boa parte da noite foi gasta no estafante ofício de tentar dormir. As coisas iam bem até as 3 horas: olhos disciplinadamente fechados, pensamento positivo, contagem de carneirinhos pulando a cerca (foram 182, para ser exato), baixo índice de viradas na cama e, por milagre, ausência completa de enxaqueca.
Às 3 e 11, pontualmente, tive a infelicidade de me lembrar de uma professora do primário, que à época, aliás, era jovem. "A literatura, meninos", dizia ela sublinhando os termos, "é uma bela e agradável companhia que se pode levar para a cama e usar o quanto quisermos. E a vantagem é que, depois de usá-la, temos sono".
Relevando a potencial ambiguidade desse conselho, pouco adequado aos precoces garotos de hoje, achei que devia levar para a cama essa companhia e me divertir com ela. Comecei com a "Rua dos Cataventos", de Quintana, que estava à mão na cabeceira, mas achei ali metáforas às quais ainda não tinha prestado atenção em leituras diurnas.
Antes que o achado me distraísse, mudei para o"Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo", de Manoel de Barros. Dessa vez, não fiquei distraído, mas abismado com algo que já me vem abismando há anos: como alguém pode ser capaz de extrair poesia de coisas tão simples e de uma forma tão direta, tão despojada?
Já inquieto, levantei-me para tomar um copo d'água (na noite anterior, foram muitas as taças de um tinto seco argentino) e acabei me sentando na cozinha, tendo à mão uma revista com poemas de Emily Dickinson. Deu errado. "Ela varre com vassouras multicores" e outras metáforas desconcertantes ficaram ecoando em minha mente.
Para acalmá-la, abri a porta, sentei-me ao lado da piscina e, copo de café à mão, fui esperar o nascer do Sol de sábado sobre os telhados da minha plácida terra natal. Mais desperto do que nunca pela volúpia das palavras, lamentei profundamente ter engolido essa história de bela e agradável companhia que podemos usar na cama até a hora em que tivermos sono.

4 comentários:

Clea Pinheiro disse...

Você é campeão de descrições da vida simples com um certo glamour de afeição e ternura, como o fez no texto: '10 coisas que aprendi nas férias'... deveria escrever livros sobre essas coisas. Acho que as pessoas iriam abri-los nas livrarias e ficar horas lendo, até passar no caixa, é sério. Não estou dizendo nada pra lhe agradar.
Descobri uma característica muito clara: você é uma pessoa comovente, tem uma capacidade incrível de comover as pessoas... quero vê-lo um dia declamando poesias, deve ser incrível!

mariza disse...

Márcio, meu amigo,

console-se comigo, você teve por companhia boas coisas. eu, ao contrário, nesta que costuma ser a minha melhor hora, vi-me cercada por fantasmas. e alguns eram bem feiosos. aliás, fantasma nenhum pode ser bonito, não é?
enfim, isso deve ser coisa de quem tem muita lembrança acumulada.

seu texto, como sempre, é perfeito.

bom fim de semana.

Erica Roy disse...

Caro Amigo, Compatriota:

Lhe agradeço, antes de mais, as palavras bonitas que escreveu sobre o meu blogue em geral e sobre dois dos textos nele publicados em particular.
Não sei se sou merecedora de suas palavras, mas sei que, dentro das minhas limitações, tento sempre fazer o melhor, sabendo das responsabilidades que tenho sendo imigrante em Portugal, nascida no Brasil, sendo minha obrigação e também prazer divulgar a cultura brasileira e alguns acontecimentos ocorridos no Brasil que são motivo de orgulho para todos nós brasileiros.
Ao mesmo tempo, também me compete estar atenta ao que se passa no meu país de acolhimento - Portugal e a sua cultura, a sua História, o seu povo.
Finalmente, como deve ter lido no meu blogue - etiqueta ONG "Portugal é Legal" - presido a uma ONG justamente com esse nome ("Portugal é Legal"), cujo objecto social é o tratamento e resolução dos temas da imigração e emigração, que obviamente passam muito também pelos nossos compatriotas residentes em Portugal.
Fiquei leitora do seu blogue!...
...e mais uma vez lhe agradeço as palavras que me dirigiu.
Beijinho

Erica Roy

Letícia disse...

Esse texto eu li ontem, assim como os outros. E fiquei de comentar. Comento agora. Bela a forma como você descreve uma noite de insônia. Acho que a ingenuidade nos salva e contar carneirinhos é poético. Eu costumava fazer isso. Hoje não mais. E fico imaginando você lendo Quintana, tentando dormir e transforma tudo isso em fato e escreve. A sua vida real é literária e bonita, Márcio.