terça-feira, 17 de março de 2009

Lógico, Leve & Lírico


Um sopro tranquilo
Uma estação de rádio que por acaso esqueci ligada me surpreendeu no meio da madrugada com acordes familiares. Concentrei-me um instante para saber do que se tratava e descobri velhos conhecidos.
Era o Dave Brubeck Quartet, que me iniciou no jazz e fez o mesmo com milhares de outros jovens pelo mundo afora. O mais famoso quarteto norte-americano dos anos 50 e 60 transformou-se nos Beatles do gênero ao lançar"Time Out". O disco, de 1959, é ainda hoje um campeão de popularidade. Não é um trabalho de experimentalismos como o cultuadíssimo "Kind of Blue", de Miles Davis, lançado no mesmo ano. É simplesmente o refinamento daquilo que havia sido feito de melhor até então. Por isso mesmo é um disco pedagógico: depois de ouvi-lo, os leigos que dizem não gostar de jazz descobrem que de fato podem vir a apreciar muito do que se faz sob esse nome. Aprendem a ouvir jazz com o "Time Out".
No Dave Brubeck Quartet daquela época dourada está uma de minhas mais persistentes fixações musicais: o saxofonista Paul Desmond. Na adolescência, a moda entre os meus (pouquíssimos) amigos apreciadores de jazz era dizer que Jonh Coltrane é o maior saxofonista que já existiu. Outros diziam que o maior era Charlie Parker. Com todo o respeito que devo à obra de ambos, nunca entrei nessas disputas. Fiquei sempre com Desmond, que provou que os brancos têm, sim, um sentido jazzístico peculiar. A sonoridade e o fraseado de Desmond são inconfundíveis mesmo para quem não conhece jazz e só o ouviu uma vez. Ele não é barulhento — pelo contrário, soa sempre tranquilo, mesmo quando a canção é mais ritmada — e tem a rara capacidade de realizar improvisos com emoção e razão, duas coisas que raramente andam juntas na arte.
Quando publiquei meu primeiro texto jornalístico, ali pelos 16 anos, se não me falha a memória, alguém me perguntou qual seria a minha referência literária, o autor cuja obra mais se aproxima daquilo que eu consideraria um ideal de escrita. Minha mente passou em revista geniais escrevedores de cotidianidades do porte de Machado de Assis, Rubem Braga, Antônio Maria, Drummond, Fernando Sabino e tantos mais. Mas nenhum me parecia suficientemente próximo do que eu queria para mim. Os aspirantes sonham alto. O que eu queria mesmo era soar em prosa como Paul Desmond soa na música: lógico, leve e lírico.

2 comentários:

mariza disse...

particularmente, quem me empolga é Charlie Parker.
e pasme, Professor, também gosto de Gato Barbieri... hihihi
fique feliz, o escritor é lógico, leve e lírico.

beleza de texto, Márcio.

Luciana F. disse...

amo jazz...e, sim, adoro coltrane...eu e atorcida do flamengo...mas como não gostar? eu gosto muito são das cantoras de jazz, nina simone e tal...aqui em porto alegre é uma tristeza, não há uma bar de jazz decente...e os de blues também já estão minguando....a cultura musical dessa juventude de hoje é de matar...e olha que sou roqueira de carteirinha, gosto de um barulho bom...o problema é que só se vê pagode (eca!), eletronica de péssima qualidade e outras porcarias enlatadas...abraço