domingo, 22 de fevereiro de 2009

Que máscara você está usando agora?

Sobre carnaval, literatura e o sagrado direito de ser redondo

A caminho do trabalho hoje pela manhã, parei para ver o lixo carnavalesco de sábado acumulado no centro da cidade. A noite de sexta-feira, como de costume, foi dedicada a um irreverente desfile de fantasias que reuniu milhares de foliões. Como resquício dela, lá estavam no chão centenas de máscaras de gatos, piratas, pierrôs, colombinas e outros personagens.
Enquanto o serviço de limpeza juntava os restos e lavava as ruas, ia dizendo a mim mesmo que o carnaval, embora não me agrade, tem o mérito inegável de me aproximar mais da literatura. É preciso chegar o tempo da folia para que eu me recorde, a cada ano, do quão profundamente a literatura é capaz de compreender a nossa existência.
Acho sintomático, por exemplo, que se usem máscaras e fantasias no carnaval. Vejo nisso o reconhecimento explícito de que esta nossa comédia humana é feita, afinal de contas, de personagens e enredos. Não podemos, é verdade, redigir todas as ações da nossa trama de vida, embora nos esforcemos ao máximo por controlá-la.
Mas não resta dúvida de que, a exemplo de personagens, desempenhamos papéis e usamos máscaras correspondentes a eles nos 365 dias do ano. No campo pessoal ou profissional, esses papéis costumam ser desempenhados como imposição, exigindo-se de cada ser-personagem um comportamento adequado ao seu estereótipo.
Pensando a respeito enquanto olhava as máscaras jogadas no chão, lembrei-me do inglês E.M. Forster, um romancista sofisticado (que inspirou o cinema em produções como o belíssimo "Retorno a Howard's End", de 1992) e um crítico literário refinado, que propôs a classificação de personagens em "planos" ou "redondos".
Planos são os personagens que apresentam ao logo de toda a trama uma mesma linha de características, sem profundidades psicológicas. Redondos, os que têm dentro de si complexidades que os tornam difíceis de entender, peculiaridades que fogem a estereótipos e, sobretudo, conflitos que podem colocá-los em rota de colisão com o mundo e consigo mesmos.
Desde que parei de acreditar na simplória idéia de que literatura e vida pertencem a mundos inconciliáveis, eu me dei conta de que entender o prazer e a dor de ser humano é, de certa forma, uma questão de análise literária. Deveríamos ter algo como uma crítica literária da vida, capaz de mostrar a profundidade, oculta ou explícita, de cada cena da existência. E a beleza dolorida ou prazerosa de cada episódio vivido.
A primeira tarefa dessa crítica seria mostrar que não há, é óbvio, ser humano "plano". Todos somos redondos, e quanto mais nos assumimos como redondos, mais humanos nos tornamos. (Aliás, que os muito bem resolvidos me desculpem, mas as pessoas em conflito são de longe as mais interessantes, assim como são os personagens inquietos e problemáticos os que atraem o interesse e fazem o movimento das tramas na literatura e na dramaturgia).
Também caberia a essa crítica da vida mostrar que, por força dos estereótipos, nem sempre vemos reconhecido nosso direito à complexidade, à profundidade e ao conflito. Espera-se do profissional sério que seja sempre profissional, todo o resto sendo considerado incompatível com o seu papel. Do adulto se espera que seja sempre adulto, reprovando-se nele qualquer vestígio da infância.
A lista não pára aqui. Da mulher se espera que seja sempre doce e acolhedora. Do homem, que seja sempre forte e corajoso. De todos — e esse talvez seja o mais forte estereótipo e o mais difícil de combater — se espera que, tendo atingido a idade da razão, firmem o compromisso de não tolerar o erro e a falha em si mesmos e nos outros.
É essa expectativa trazida pelos estereótipos que faz alguns médicos advogados, engenheiros e outros profissionais se sentirem seminus ao serem vistos por clientes ou subordinados em circunstâncias informais, fora do seu ambiente, do seu traje de ofício e, por conseguinte, da sua zona de conforto. Tendo introjetado o estereótipo, essas pessoas o cobram de si mesmas, impiedosamente. Nessas ocasiões, para usar a expressão consagrada pela anedota, "o rei está nu" diante de si mesmo.
Acredito que é da tensão entre a imposição de estereótipos e a necessidade fundamental de ser complexo, múltiplo e de ter conflitos que nasce o mal estar existencial. É esse mal estar — assumido pelas pessoas autênticas e varrido para debaixo do tapete pelas menos corajosas — que o carnaval tenta minimizar como válvula de escape. Máscaras e fantasias talvez sejam o grito de quem deseja lembrar ao mundo e a si mesmo o seu direito sagrado de ser um personagem redondo, com tudo o que isso tem de imperfeito e de sublime.
Com essas idéias na cabeça, achei um espetáculo digno de nota aqueles restos de máscaras e fantasias sendo recolhidos pelo serviço de limpeza enquanto eu circulava pelas ruas na manhã de sábado. Não gosto de carnaval. Mas gosto da idéia de que preciso, pelo menos uma vez por ano, trocar de máscara e jogar fora meus estereótipos.

6 comentários:

Mai disse...

Temas psicológicos...Prefiro os mais leves e 'etílicos' como os bons vinhos que 'dantes' sugerias...

Divina Comédia à parte, centenas de máscaras no lixo talvez seja um sinal de que 'rolou' vinho na 'parada'.

Planos e listras são chatos, mesmo. Monóticos que só vendo, funcionam como soníferos naturais.

Somente quem não gosta de carnaval consegue a proeza de analisar as máscaras. E ai, és tu quem associas bem, as coisas, porque é o momento propício.

Recatados e tímidos soltam 'doidivanas' enclausurados no adentro do adentro e saem às ruas, com máscara do Zorro e do Batman. (eu sempre achei que o Batman era a mulher gato) Porque convenhamos resistir a uma mulher como Michele Pfifer dentro de uma roupa daquelas, só sendo 'eunuco'.

Bem, pensarei as máscaras também.

Belo texto.

Abraços, Mai

Mai disse...

Esqueci das aspas em 'monóticos' era assim mesmo - um neologismo. Listras e planos cansam a vista, mesmo.

Monótico - a ótica monótona...
A monotonia e o 'enfado' dos olhos...Olhos que se cansam da mesmice da paisagem...

Era isso.

Guilherme Pereira disse...

COMPANHEIRO:
Clea - blogue removido.
Tentei lhe enviar para o endereço dela o texto que segue, mas veio devolvido, porque o próprio endereço tb não existe.
Desculpa mil vezes usar teu espaço apenas para que me/nos ajudar a entender o que se passou
O texto que se segue foi o que enviei à CLEA.
Abraço!

Guilherme
...............

AMIGA CLEA!

Verifiquei hoje, com perplexidade e tristeza, que o teu blogue foi removido, o que é uma PERDA grande, porque nele se expressavam sempre ideias, emoções, vivências, que sempre seguia, tal como a Erica, com atenção e carinho.
O que se passou?

Só respondes se quiseres, claro, embora a minha intuição me diga que foste vítima de um objectivo acto de censura, motivado certamente por interpretações persecutórias - tanto gostaria de estar enganado, Meu Deus!

Beijo Solidário.

Guilherme

Emiliana Carvalho disse...

É justamente o "esperar do outro" que reforça a existência de estereótipos, aliado a um olhar preguiçoso que se limita a enxergar apenas a superfície desse outro e se contenta com isso. Não sei se todos usam máscaras ou se, na verdade, um pouco da essência de cada um se manifesta em momentos definidos,dando uma sensação de ilegitimidade. Planos, redondos... somos tudo isso, com ou sem coragem de ser, com ou sem consciência de ser.
O fato é que, ainda assim , a vida segue, curiosamente...

Belo texto!

Até breve.

Liene Márcia disse...

Quem sou eu? O que faço aqui? Não é de se surpreender que a resposta seja precedida de embaraços. Afinal, esta é a grande questão existencial que há muito inquieta as mentes mais céticas. Pelo que sei, homem algum chegou a ser ele mesmo; embora essa seja a sua grande aspiração. E, nesses momentos de busca usam máscaras tentando esconder suas fragilidades. Isso tudo na insistente mania de "fazer parte do grupo". O perigo mora aí: nessa confusão de ideais é que muitas pessoas perdem sua identidade. Tornam-se estereótipos perfeitos, mas que, não sabem o real valor da individualidade.
Entre planos e redondos,o que importa é a busca de sua verdadeira identidade sem ferir o limite do outro.

mariza disse...

...e sob a máscara, outra, e ainda sob outra, mais uma. e tantas quantas bastem para nos salvaguardar de julgamentos, de dedos em riste. ainda que os juizos partam de uma imensa e esmagadora maioria hipócrita. porque ao homem não lhe é permitido arrastar consigo toda a sua gama de humanidade, todas as suas personas. porque isso fere, porque isso expõe. porque a verdade, invariavelmente, dói.
perfeito o texto.