quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Saudades prévias

Ausência futura
"As coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão" (Drummond)
Meu peito inventou um sentimento novo. Sem encontrar melhor nome para ele, chameio-o de saudades prévias, uma vivência antecipada da falta que eu ainda virei a sentir. Devo essa invenção a meu amigo Miguel. Ele chegou a Minas no início deste mês, de férias, e vai embora para o litoral no início de fevereiro, quando iniciam as aulas.
A 10 dias da partida de Miguel, meu coração, firme no antigo propósito de viver a galope e não perder tempo, entendeu que já era hora de tomar providências quanto ao visitante. Desde então, contrariando a recomendação de que não se deve sentir nada antecipadamente, eu me peguei sentindo ausências futuras como se fossem atuais.
Sei, por exemplo, que sentirei falta dos passeios na praça, das idas ao cinema, das conversas sobre futebol, dos desenhos animados. Estou certo de que vou achar ruim não ver no chão bagunça de roupas, não ter com quem insistir para tomar banho. E tenho certeza de que acharei a casa muito maior quando as aulas tiverem início.
Com alguns objetos se passa a mesma coisa. Antevejo o olhar que lançarei ao canto do quintal onde a bola de Miguel fica e à parte do móvel da TV em que está agora seu videogame. Por estar convicto da realidade desses vazios, meu coração os antecipa, como se fizesse o reconhecimento de uma dívida que a saudade fatalmente virá cobrar.
Desconfio de que meu coração age assim porque tem pavor de dever. Talvez ele se sinta como os devedores oprimidos, que quitam seus débitos antes do vencimento. Também pode ser que este meu coração apressado queira apenas negociar com a saudade, antecipando-lhe o pagamento de parte do que deve e pedindo em troca que ela o maltrate com carinho quando Miguel se for e a ausência se fizer presente.

3 comentários:

Letícia disse...

Tenho esse sentimento também. Agora sei o nome dele. A gente morre de medo de sentir saudade, mas ela vem e pronto.

E a citação do Drummond deu muito sentido à sua saudade prévia.

Um abraço, Márcio.

Flávia disse...

Há ainda os companheiros da saudade prévia - os amores prévios, as risadas prévias... e aqueles tão companheiros uns dos outros que a gente nem sabe definir onde começa um e termina o outro, ficam ambos ali, juntinhos, se aquecendo dentro do nosso coração. Eu gosto, sabe?

Seu texto me maltratou com carinho :)

Um beijo.

maicher disse...

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